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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Sobre meu rompimento com o PCB


Eu me desliguei do PCB em outubro deste ano, em meio às discussões sobre a posição correta para o segundo turno presidencial de 2014. Como o motivo explicitado foi a discordância com a linha tirada pelo CC do Partido, alguns camaradas, na época -inclusive de dentro da organização-, comentaram comigo que "não havia necessidade" de sair por isso, como se a questão fosse estritamente eleitoral. Mas o tópico eleitoral foi apenas o estopim de uma escolha que eu já vinha amadurecendo. Em respeito a essas pessoas, gostaria de voltar ao assunto.

O motivo público, como dito, foi a questão do voto nulo. Falei a respeito em minha nota no Facebook e me reporto a ela. Entendo que é questão vital -no sentido mais literal do termo- para uma organização revolucionária ter noção de tempo, de momento, de oportunidade. O PCB falhou fragorosamente nisso. Nos segundos turnos de 2006 e 2010 capitulou à cantilena do voto crítico, isso quando o PT tinha larga vantagem e a oposição de direita se mostrava tímida. Já no momento atual, quando a esquerda tem sido agredida fisicamente nas ruas, como no infame 20 de junho de 2013, quando sem o menor pudor a grande mídia -de Merval n'"O Globo" à Veja- fala em impeachment, quando PT e PSDB disputam uma eleição na margem de erro... O PCB, de forma "purista", reconhece que o PT não é assim diferente do PSDB e o voto nulo se justifica. Isto é, toda a retórica dos anos anteriores que embasou o voto crítico no passado, deixou de valer na conjuntura atual, quando o PT se mostra, na conjuntura, como a opção efetivamente menos pior (e é duro aceitar isso), e o PCB, então, "acorda" para o fato de que os dois são iguais e que é preciso votar nulo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Velha política, eleições e voto nulo


Joycemar Tejo
agosto de 2014

E os EUA continuam racistas, e a morte de Michael Brown mostra isso. Rancor e exploração demais para serem apagados em uma mera centena de anos, sendo que já com o séc. XX bem adentrado negros ainda eram linchados e pendurados em árvores. A eleição de Obama foi ilusória. Concordo que, independentemente de tudo, foi um fato progressista por si só: um negro eleito no país da Ku Klux Klan, assim como foi um fato progressista por si só Lula, um operário, e Dilma, mulher, serem eleitos. Mas o avanço acaba aí. Política e luta de classes não se resumem à cor da pele e gênero, e um operário que trai é pior que um burguês que apenas cumpre seu papel histórico de burguês. Obama tem a política externa que vemos aí, e tanto faria para isso ter ascendência africana ou escandinava loira de olhos azuis.

A decepção que foi Obama. Não mudaria muito, mas, o que foi...? Lula nunca foi "de esquerda", mas ser o que foi...? E aí o povo perde a esperança na política, pois o salvador se mostra igual ao anterior, até ser substituído pelo salvador seguinte per omnia secula seculorum. Político é tudo a mesma coisa, e nisso devemos concordar- desde que deixemos claro a que tipo de político nos referimos.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Leninismo e críticas "pela esquerda"


Joycemar Tejo
outubro de 2013

Há crítica e críticas. Umas para destruir, outras para ajudar, algumas injustas, outras, bem fundamentadas. Os marxistas não deveriam se melindrar com as críticas, sendo o confronto de ideias a "alma da dialética" (Adam Schaff). Coisa diferente é a agressão gratuita: nesses casos, manda-se à merda e está tudo bem. Não se pode agradar a gregos e troianos. Desafetos sempre existirão, pelos mais diversos motivos, inclusive pelo simples "não ir com a cara". Mas os cães ladram e a caravana passa, de modo que nossa proteção contra o, digamos assim, veneno alheio, está em nosso próprio proceder. Nesse sentido me vem à memória uma anedota árabe. O profeta pedia a Deus, toda noite, "Senhor, livrai-me da língua dos caluniadores", ao que Deus um dia responde, "meu filho, queres ser melhor que eu?".

Dito isso, entendam: o comentário negativo é inevitável. O que não quer dizer que não possamos tirar algumas lições dele, e nesse sentido, para mim que sou leninista, considero oportunos os comentários por parte dos anarquistas e dos comunistas "de esquerda". Esquerdistas infantis que sejam, têm a acrescentar.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Desarmamento e pacifismo


Uma coisa facilmente constatável é que o campo de assuntos inseridos no tema "defesa" -armas de fogo, equipamento e estratégia militares etc.- é quase absolutamente tomado pela direita. Assim como nos EUA, da secular National Rifle Associaton, o interesse por esses assuntos parece estar restrito às vozes conservadoras da sociedade. A esquerda (aqui falo em sentido lato), talvez tomada por escrúpulos politicamente corretos, deixa o campo livre e não tem uma posição a respeito, ou, quando tem, é a partir de premissas erradas, o que leva a conclusões igualmente erradas.

A direita, pois, defende o armamento da população. Por isso a esquerda não deve igualmente defender? Ao contrário.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O tabu da prostituição


O dogma só tem razão de ser diante da religião, religião aqui como conjunto de "verdades absolutas" contra as quais não cabe divergência. É porque é e ponto final. Há religiosos em todos os campos, da política à religião propriamente dita (claro). É o reino do pensamento binário, A ou B, isso ou aquilo, como se a vida não comportasse terceiras, quartas e quintas possibilidades distintas. Não há nada mais estranho ao marxismo do que o pensamento binário. A discussão e a colisão de concepções é, como diz Adam Schaff, "a alma da dialética" e, como tal, deve ser respeitada "sobretudo por marxistas". Mais que isso, prossegue Schaff,

é realmente estranho procurar substituir por decretos a busca pela verdade, o que só se pode realizar com luta, em geral com o uso do método de experiência e erro. E com que base? Poderíamos perdoar tal procedimento, em última análise, nos religiosos, mas jamais nos marxistas.

Grifo meu, todos os trechos d'"O Marxismo e o Indivíduo". O burocrata, o religioso, substituem o debate pela canetada, pelo decreto; não o marxista. Dito isso, falaremos aqui de um desses assuntos que têm recebido abordagem binária, a prostituição, que, se nunca saiu de evidência, está ainda mais na crista da onda em razão da "Lei Gabriela Leite", PL 4.211/ 12, projeto de lei de iniciativa de Jean Wyllys do PSOL (teor aqui), buscando regulamentar a atividade dos profissionais do sexo. A própria esquerda aborda o tema de forma rasteira, o que é imperdoável.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Engels e a questão do voto


Joycemar Tejo
abril de 2013

Vejamos o seguinte trecho:

Já podemos contar com 2 1/4 milhões de eleitores. Se isto continuar assim, conquistaremos até ao fim do século a maior parte das camadas médias da sociedade, tanto os pequenos burgueses como os pequenos camponeses, e transformar-nos-emos na força decisiva do país perante a qual todas as outras forças, quer queiram ou não, terão de se inclinar. Manter ininterruptamente este crescimento até que de si mesmo se torne mais forte que o sistema de governo actual, não desgastar em lutas de vanguarda esta força de choque que dia a dia se reforça, mas sim mantê-la intacta até ao dia da decisão, é a nossa principal tarefa (...) A ironia da história universal põe tudo de cabeça para baixo. Nós, os "revolucionários", os "subversivos", prosperamos muito melhor com os meios legais do que com os ilegais e a subversão. Os partidos da ordem, como eles se intitulam, afundam-se com a legalidade que eles próprios criaram.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Minha filosofia - II


Na ausência de um "sentido" metafísico, de um "plano" divino para nossas vidas, é muito fácil cair no desespero. Sem uma rede de segurança, somos obrigados a, antes de tudo, compreender e aceitar a realidade para, então, transformá-la (se possível). O materialismo aqui, afinal, deve ser o dialético de Marx, revolucionário, e não o materialismo -às raias, que contradição, do idealismo- contemplativo de Feuerbach. Essa nova abordagem leva a uma postura diferente diante da vida. Consiste nisto: se não há recompensas post mortem, se tudo se exaure com a morte (o ser humano sendo único e irrepetível, como diz Adam Schaff ; uma vez morto, nada nunca mais lhe será idêntico), temos que simplesmente não vale a pena esquentarmos a cabeça

O desespero dá lugar à serenidade. É questão apenas de mudar o foco.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

De socialismos de mercado


Joycemar Tejo
janeiro de 2013

Por que insistir em que façamos uma análise não-binária do mundo? Porque a forma mais fácil de encarar a vida é se deixar levar pela aparência, pelo apresentado, pelo dado. Mas o fácil não é sinônimo de acertado; muito pelo contrário, a realidade é complexa, sinuosa, não-linear. É dialética, em outras palavras.

O intróito é necessário porque este post -o primeiro do ano- tem como tema a China. Pois a China tem sido abordada sob uma ótica simplista, que ilude tanto a direita quanto a esquerda: essa ótica simplista que dá ao país a caracterização de "comunista". E por que não seria comunista, se é uma autodenominada "república popular" e tem um PC no poder? Ocorre que nem a autodenominação nem o bloco no poder -a "aparência"- bastam para configurar a "essência" de dada experiência. É esse o ponto.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Considerações sobre o PT - II


É evidente que a caracterização do PT como um partido burguês com influência de massas é adequada. Jamais, desde sua origem, foi concebido como uma partido socialista revolucionário; o que havia -e isso é coisa bem diferente- eram tendências revolucionárias, mas jamais a ponto de constituirem um todo homogêneo, e mesmo essas tendências eram minoritárias. Lincoln Secco ("História do PT. 1978- 2010", Ateliê Editorial), nesse sentido, destaca "que o PT surgiu de pelo menos seis fontes diversas", a saber: o novo sindicalismo, Igreja Católica, egressos do MDB, intelectuais liberais, organizações trotskystas (fazendo entrismo) e remanescentes da luta armada. Esse balaio de gatos não poderia dar boa coisa, culminando com a adesão pura e cabal à direita ao longo dos anos 90 com a ascensão do grupo de Lula e Dirceu e a submissão acrítica à institucionalidade burguesa.

Ter influência de massas, porém, dá um plus (ou um "plus a mais", sic, como dizia um professor meu, promotor de justiça) ao PT, uma vantagem em relação aos demais partidos burgueses. Afinal, essa influência de massas habilita o PT a implementar ataques à classe trabalhadora que a direita tradicional (sem tal influência) não conseguiria. A Reforma da Previdência de 2003 é só um exemplo. Com os movimentos sociais manietados, encontra o caminho livre, ao contrário do que se daria sob o demotucanato.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Considerações sobre o PT - I


Temos necessidade de rótulos. E isso não é ruim, na medida em que nos ajude na tarefa de compreender o mundo. O problema é quando o rótulo se torna mais importante que a coisa rotulada; é quando o significante não corresponde mais ao significado, mas nos recusamos a disassociá-los. É aquele trecho do "Romeu e Julieta" de Shakespeare: se "rosa", a flor, tivesse outro nome, continuaria exalando o mesmo perfume. Poderíamos chamá-la de qualquer outra forma. Mas se "rosa", o termo, se refere para nós àquela flor que exala perfume, não podemos chamar assim aos, digamos, cactos. Que, mesmo chamados de "rosas", continuarão verdes, ásperos e espinhosos.

Esses jogos terminológicos costumam confundir muito na política, quando se dá ao nome mais importância que à prática concreta. Olhem a sopa de letrinhas partidária brasileira: "democracia", "popular", "social" etc. abundam nas siglas, sem que haja a menor correlação fática entre o nome e a práxis. Daí se banaliza o conceito: muda-se o nome e, como a rosa de Shakespeare, o partido continuará sendo a mesma coisa. O "Partido Democrático Popular" é o mesmo "Partido Social Popular", que... em nada se diferencia do "Partido Popular da Democracia Social". As combinações são infinitas.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Aliados e seus equívocos


A companheira Lena, pelo Facebook, comenta, em tom de brincadeira, que a LIT (organização internacional à qual o PSTU é vinculado) é agente da CIA, e cita o entusiasmo da corrente com a "revolução democrática" que estaria se dando na Síria. Esse comentário não é novo -tenho ouvido-o reiteradamente de diversos companheiros, como gracejo ou mesmo dito seriamente- e, por considerá-lo injusto, pus-me a pensar sobre seu significado e as implicações envolvidas. As perguntas essencialmente colocadas são: o que é exigível de um aliado, que tipos de erro são toleráveis neste e, mesmo, se são necessários aliados para o processo revolucionário.

O processo revolucionário, por ser justamente um processo, uma sucessão não-linear de acontecimentos (e que jamais encontrará um formato "pronto"; também nesse sentido pode-se falar em revolução permanente) requer uma pluralidade de agentes. É impossível (ou ao menos improvável) que um único agrupamento, forte e estruturado que seja, encontre condições objetivas de realizar sozinho a superação de um sistema de produção. Mesmo porque a tarefa não se exaure com a tomada de poder, ao contrário. As revoluções exitosas na História são pródigas em exemplos de como as forças revolucionárias confluem- como a Russa, bolcheviques, socialistas revolucionários e mencheviques de esquerda atuando em conjunto.

domingo, 10 de junho de 2012

A Comissão da Verdade (e a questão da guerrilha)


A Comissão da Verdade veio com um grande oba-oba, ex-presidentes reunidos e toda festa acompanhada pela mídia (aqui). Não é preciso dizer que o espírito "festivo" já mostra a que veio a Comissão, cândida e pacífica, conforme as palavras de seu coordenador Gilson Dipp: "não haverá revanchismo". Justiça é revanchismo, no jargão dos militares e de seus lacaios civis. A tortura deve passar em branco, caso contrário se estará tratando de revanche. Parece enojante; e é. Daí a necessidade urgente de deixar claro à população que o trabalho não se consumou com a instauração da Comissão mas, ao contrário, acaba de começar. É preciso fazer com que ela cumpra a tarefa histórica pendente, não só a apuração mas a punição dos crimes da ditadura. Mesmo porque, juridicamente falando, não se pode conceber que crimes lesa-Humanidade sejam passíveis de "prescrição". Tampouco considerá-los "políticos", e portanto anistiáveis, como na infame decisão do Supremo Tribunal Federal (já falamos disso no blog, aqui).

Há uma coisa importante a se falar. Quando tocamos na tecla da punição dos criminosos do regime, as polianas e os bons moços bradam, "os dois lados têm que ser apurados e punidos!" Dois lados, como se houvesse paridade! Como se o ato de resistência fosse igual ao ato agressor que levou à resistência. Como se meia dúzia, algumas dezenas que sejam, de "guerrilheiros", em sua maioria jovens estudantes de classe média -cordeiros em pele de lobo, como a turma do Inverta (PCML) acertadamente definiu, em "O enigma da Esfinge"- tivesse o mesmo potencial destruidor da máquina estatal e suas forças armadas, auxiliadas pela CIA e todo o know how do imperialismo mundial. Os dois lados! Davi e Golias. Estilingues contra o tanque de guerra. Os quase inócuos foguetes artesanais do Hamas e os bombardeiros de última geração do sionismo israelense, os "dois lados" a serem punidos. Basta que se tenha bom senso para perceber o ridículo disso. A punição, portanto, é contra o agente "público" que assassinou, torturou, estuprou e executou. O "outro lado" já foi punido, com o assassinato, a tortura, o estupro e a execução.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Teoria para a prática


Na seção "textos indicados" disponibilizo, dentro outros, um escrito pelo juiz federal cearense George Marmelstein Lima, sobre como o espírito inventivo acaba amordaçado pelas convenções acadêmicas. A intenção é falar, discutir, desafiar; mas a forma, maldita seja, as convenções cerceiam tudo isso, e acabamos cordeiros desejosos de agradar à banca e ao orientador. Há todo um formato preestabelecido que deve ser obedecido, mesmo que isso signifique o sacrifício da criatividade e da originalidade- do pensamento livre, enfim. Experimentem, em um concurso ou prova, dizer o oposto do que os professores doutores da banca dizem. Serão fulminados pela heresia. Isso não quer dizer que vocês estejam errados, cientificamente falando; o erro foi não seguir a cartilha. É por isso que, no geral, sou partidário do princípio de que "prova não prova nada", e concordo quando Clóvis Beviláqua diz (aqui se referindo especificamente ao ensino do Direito) que "o que se deve apurar na educação jurídica não é a expansão cerebral, e sim a fortaleza de espírito, a resistência do caráter", e também com Lênio Streck (aqui), igualmente sobre o ensino jurídico, ao dizer que em seu "mundo ideal"

(...) não mais será necessário decorar a Constituição e os Códigos para fazer concurso; as perguntas, no novo regime, buscarão detectar efetivamente o que os candidatos sabem; também o Exame de Ordem não trará mais perguntas que somente o argüidor saiba ou baseadas no único livro que o argüidor leu ou conhece.

domingo, 25 de março de 2012

Todas as formas de luta


Joycemar Tejo
março de 2012

É preferível, em uma batalha, estar com um M16 a estar com um .38 obsoleto. Mas se não há um M16 às mãos, devemos nos virar com o que temos e, se necessário, até com paus e pedras. Como tudo na vida, as escolhas dependem necessariamente do leque de opções e, quando a situação aperta, devemos utilizar o que for possível. A metáfora bélica é para lembrar que, seja na guerra real ou na figurada, nós que reivindicamos o marxismo como instrumento de transformação da sociedade devemos, também, saber utilizar as armas que temos, não descartando nenhuma a priori- conquanto, naturalmente, que seu uso não consista em traição de princípios nem em obstáculo indireto à estratégia colocada.

Gosto de usar como exemplo, e não por acaso, por ser meu campo de estudo, o Direito. Os marxistas sabemos que a emancipação humana e o fim da opressão do homem pelo homem (e todas as mazelas decorrentes dessa opressão, homofobia e as diversas discriminações, abismo entre trabalho manual e intelectual etc.) só podem se dar em outros moldes, em outro formato, vale dizer, em outro sistema de produção. Não se pode chegar a esses objetivos dentro do capitalismo, pois tal panorama é intrínseco ao sistema. Faz parte dele, logo é preciso mudá-lo. Mas ocorre o seguinte: mesmo dentro do sistema, é possível, pouco e limitadamente que seja (afinal, tratam-se de características imanentes), enfrentar tais mazelas, através de ferramentas que o próprio sistema coloca à disposição.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Pontos sobre o reformismo


1. Qualquer postura marxista pressupõe necessariamente o engajamento na derrocada revolucionária do capitalismo; não se trata de aperfeiçoá-lo, humanizá-lo ou, menos ainda, de desenvolvê-lo. O papel dos marxistas é pela superação do sistema, erguendo, sobre suas bases, a nova sociedade.

2. Por isso, é incompatível com o marxismo qualquer visão nacional-desenvolvimentista, que pressupõe uma aliança com setores burgueses "progressistas" da sociedade. Tal filosofia, sinônimo do conciliacionismo de classe mais crasso, se já era equivocada nos anos 40-60, hoje em dia adota caráter absurdo, haja vista a impossibilidade de se falar, hodiernamente, em uma burguesia "nacional", diante da globalização do capital e da inserção das economias nacionais no cenário internacional (o que não impede que haja, pontualmente, contradições entre as diversas burguesias). Ademais, o pensamento nacional-desenvolvimentista, pelos marxistas, significaria a adoção da visão etapista, enxergando a evolução da sociedade (rumo ao socialismo) como um processus mecânico e fatalista:

A formação de uma economia de mercado nas bases previstas pelo nacional-desenvolvimentismo era compreendida pela esquerda como um elemento de maturação das condições necessárias à construção de uma experiência socialista no Brasil. (Apud Bruno J. C. Oliveira, "Os fundamentos de uma derrota: uma análise sobre o nacional-desenvolvimentismo brasileiro", aqui).

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

De socialismos monárquicos


Joycemar Tejo
janeiro de 2012

Morre Kim Jong-Il da Coreia do Norte. Como é de praxe, penso que ao analisar a experiência norte-coreana devemos evitar saídas simplistas ou reducionistas: o método deve ser o dialético e não o binário. Vejo muitos desprezando as informações que nos chegam do país, porque partiriam dos meios de comunicação burgueses: organizações Globo, Veja etc. Daí vão se refugiar, ora ora, nos meios de comunicação oficiais... norte-coreanos. Em ambos os casos a imparcialidade -se é que há órgão de informação imparcial desde que a imprensa existe- fica comprometida, e as coisas acabam por se reduzir a uma escolha, uma opção, acredito "nisto" mas não "naquilo".

A posição dos marxistas revolucionários é apenas uma: ao lado da classe trabalhadora. Os comunistas não têm outros interesses que não sejam os interesses do proletariado ("Manifesto Comunista"), e o proletariado é uma classe, não um partido ou um indivíduo. A luta é pela emancipação da classe trabalhadora -que redunda na emancipação da espécie humana como um todo- e se essa tarefa é colocada nas mãos de um líder ou partido, não há emancipação em absoluto: continuamos rebanhos à espera de messias. Já na Coreia do Norte o culto à personalidade exorbita, por incrível que pareça, o stalinismo soviético (que produziu editoriais do Pravda como "se você estiver cansado, pense em Stálin e encontrará novas forças..."): basta que se diga que o marco inicial do calendário do país é o nascimento de Kim Il-Sung, fundador do socialismo norte-coreano (e uma experiência socialista ter um "fundador" já é sintoma claro de deformação) e que de Kim Il-Sung o poder supremo passou a seu filho, o recém-falecido Kim Jong-Il, e deste para seu rebento, Kim Jong-Un.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Elogio da revolução (pelos 94 anos do Outubro Vermelho)


Escrevi o texto abaixo para o meu antigo blog (aqui). Por sugestão do companheiro Willian Almeida (@waa_3101), reproduzo-o aqui como homenagem aos 94 anos da Revolução Russa (25/ 10/ 1917, conforme o calendário juliano então em voga na Rússia, ou 07/ 11 pelo gregoriano).

Antes, há que se lembrar a profissão de fé nos versos de Maiakovsky: Quando eu/ resumindo o passado/ remexo nos dias de ontem/ procurando o mais vivo/ recordo sempre/ o vinte e cinco de outubro/ o primeiro dia.

*

Perguntam-me se o ser humano é um eterno insatisfeito. A resposta é sim, e o "querer" é justamente inerente à vida, conforme já falamos em outras postagens. Mas, se se pergunta se essa insatisfação será entrave para a sociedade comunista, eu digo não, naturalmente. Se justamente a insatisfação é o que nos faz chegar até ela, enojados que estamos com o velho sistema, com a velha exploração do homem sobre o homem. A classe trabalhadora -hoje, lato sensu: não mais apenas o trabalhador de fábrica, mas todos aqueles que têm sobre si o peso do Capital, todos aqueles, independentemente de origem classista, que odeiam a forma de produção capitalista- se une, um anseio em comum, e promove a revolução social. Também aqui é a vontade que gira a roda.

domingo, 30 de outubro de 2011

Anarquistas e a questão do Estado


Joycemar Tejo
outubro de 2011

Tenho falado, como no post sobre James Cannon, que as pessoas (a grande maioria delas) parecem ter a necessidade de um "pai", de algo, uma autoridade, que lhes diga o que fazer, como proceder e, em casos extremos, até como pensar e sentir. Parece algo como uma grande infância espiritual, digamos assim. Ocorre que as gerações se sucedem e a idade adulta não chega. Nascem e morrem crianças- e vão buscar conforto nos "papas" e "pastores", se religiosos, ou nos "guias geniais", nos "grandes timoneiros", nos "pais dos pobres", em termos políticos. O fascismo se alimenta muito disso: o líder fascista é o intérprete da vontade popular (melhor dizendo, é quem diz "o quê" é a própria vontade popular), sendo o povo, assim, incapaz de se autodeterminar, uma mera "ficção teatral" (ver "O fascismo eterno" de Umberto Eco, aqui).

Eu não nutro a menor simpatia por "guias" de qualquer tipo. Muito menos aqueles que o são em nome do socialismo; esquecem que o socialismo é o autogoverno dos trabalhadores, o que pressupõe pessoas autodeterminadas. A ditadura do proletariado é obra da classe em seu conjunto, e não de cabeças "coroadas" e vitalícias. O verdadeiro revolucionário vai recusar seu culto. Lênin é a figura emblemática disso. Quando contrariado dentro do Partido, não apelava à purga ou à vendetta: simplesmente ameaçava demitir-se do Comitê Central e fazer a oposição como militante de base. Mas isso não impediu que, após sua morte, por sincera devoção do povo russo -mas também por oportunismo dos dirigentes- fizessem de Lênin faraó, como no texto de Arthur Conte (aqui).

terça-feira, 13 de setembro de 2011

James Cannon


Joycemar Tejo
setembro de 2011

Nadar contra a corrente é difícil. É tão mais fácil se deixar levar: ser mais um no rebanho, na manada, é muito mais confortável e seguro. Afinal, não exige esforço, não exige trabalho. Vai-se com os outros: falou tá falado, contestar por quê? Penso inclusive que o ser humano tem uma queda por líderes. Freud deve explicar, mas as pessoas parecem precisar de um "pai". Se não colocam isso em termos religiosos, transplantam para os "Guias Geniais" populistas, à direita e à esquerda. Isso é superado conforme se cresça, simbolicamente falando. A criança ao se tornar adulta não precisa do pai lhe dando instruções, a classe trabalhadora organizada não precisa dos "Grandes Timoneiros" lhe dizendo o que e como fazer.

Valorizo quem nada contra a maré. Por princípio prezo a coragem: mas não a coragem do temerário, que não é bem coragem e sim irresponsabilidade. Mas a coragem em cumprir o dever, de fazer aquilo que se reputa correto. Arjuna enfrentou seus medos e pegou o arco, como Krishna o conclamava a fazer no Bhagavad Gita. Era o dharma do guerreiro, explicou Krishna, seu dever. Não se deve temer a consequência do combate, e sim temer a própria fuga do combate. Reparem que o dever é um elemento intrínseco dessa coragem. Há o soldado que combate sob as ordens de seu governo imperialista, e há o miliciano do povo que combate para defender sua família e terra da agressão imperialista. É evidente que apenas esse último pratica o "bom combate".

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Ainda degeneração burocrática


Joycemar Tejo
agosto de 2011

Em post anterior, eu havia tecido algumas considerações sobre o fenômeno da degeneração burocrática que acometeu as experiências socialistas no Leste europeu, a propósito das recentes resoluções do Coletivo Lênin sobre o assunto. Em linhas gerais, sobre o tema eu sustento que: a) a burocracia não é classe, e sim casta (e isso parece ser unânime, ao menos se se seguir efetivamente a posição trotskyana a respeito); b) o socialismo pressupõe dois elementos, a planificação da economia (socializando-a), como aspecto objetivo, e planificação esta sob o comando direto dos trabalhadores, como aspecto subjetivo; c) a ausência de comando direto da classe trabalhadora não retira o caráter socialista de dada experiência (naturalmente, com a condição de que haja a socialização dos meios e dos frutos da produção, isto é, desde que se mantenha o "modo social de distribuição", como diz Ted Grant), mas sim irá caracterizá-la como uma experiência degenerada, incompleta, viciada.

Se, mesmo degenerada, dada experiência ainda é socialista, há por bem que os revolucionários a defendam contra ataques- não só externos, como internos. O inimigo interno, bem entendido, é justamente a casta usurpadora, a burocracia termidoriana -alusão ao Termidor francês, quando do golpe de direita efetuado pelos girondinos- que deve ser derrubada para que o socialismo retome os eixos. Assim, tomando por base a experiência soviética, Trotsky diz que, se é possível em determinados casos frente única com a burocracia contra a restauração capitalista, "a principal tarefa política na URSS continua sendo a derrubada da própria burocracia termidoriana" (in "Programa de Transição"), derrubada esta "por meio de uma insurreição revolucionária dos trabalhadores" (in "The USSR in War", do primoroso "In Defense of Marxism" trotskyano).

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