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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

De Deus na política


Causam repúdio as manifestações de um Pastor Everaldo, candidato à Presidência pelo PSC, assim como os posicionamentos de um Feliciano na tribuna da Câmara dos Deputados. Política e religião não deveriam se misturar, afinal; o Estado é laico, conforme a Constituição -apesar do inconveniente "sob a proteção de Deus" em seu preâmbulo-, e não estamos mais sob os auspícios da de 1824, que dispunha em seu art. 5º que, verbis, "a Religião Catholica Apostolica Romana continuará a ser a Religião do Imperio". Ainda bem que esse ranço ficou no passado, e lutarei intransigentemente para que não volte. Porém, gostaria de, à luz disso, explicar o porquê de apoiar partidos e movimentos políticos de cariz religioso em outras partes do mundo, para que não pareça uma suposta incoerência de minha parte.

O Hamas e o Hezbollah, aquele sunita e este xiita, respectivamente "Movimento de Resistência Islâmica" e "Partido de Deus" são, evidentemente, organizações de matriz religiosa. Mas a religião, nesses casos, fica em segundo plano diante do caráter progressista que tais organizações adotam no momento atual: a luta do povo palestino em face do Estado de Israel (ou "Entidade Sionista", como preferem chamá-lo), a resistência -especialmente xiita, incluindo o Irã- contra esse mesmo sionismo e o imperialismo estadunidense, principalmente levando em conta o estágio de submissão das monarquias sauditas aos EUA. Ser religioso, buscar força na religião, é secundário- o que importa é o papel concreto de resistência -progressista- que é desempenhado.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

De fundamentalismo e califados


Quem assistir no Youtube aos vídeos do ISIS -Islamic State of Iraq and Syria-, com louvores a suas vitórias sobre o Hezbollah, sobre o exército regular iraquiano etc., pensará que o Califado Mundial é quase uma realidade. Propaganda é a alma do negócio, afinal; e qualquer organização que procura a hegemonia (não apenas militar, mas também no sentido gramsciano, o da busca do consenso) deve "botar a cara".

Mas o assunto do post, após tanto tempo de inatividade do blog, não é agitprop. É uma observação que gostaria de fazer, justamente sobre os conflitos no mundo islâmico. Deixando claro que não pretendo fazer -o que não quer dizer que o risco não exista- como os "orientalistas" de Edward Said, que abordam o tema através de suas preconceituosas e estereotipadas lentes de ocidentais.

A observação é a seguinte: o dito fundamentalismo islâmico moderno nada mais é que expressão de dada circunstância histórico-material. É uma obviedade dizer isso, claro, mas nunca é demais repetir certas platitudes (nome de um de meus outros blogs, aliás). A Irmandade Muçulmana surge no Egito no fim dos anos 20 como forma de resistência contra a presença britânica e os valores ocidentais. Quando o Hamas, em sua constituição, se declara um braço da Irmandade, traz o espírito para a Palestina ocupada, dentro da resistência diante do sionismo. Os jovens montanheses pobres do Afeganistão poucos horizontes possuem senão se engajar numa milícia armada; a analogia com a garotada proletária das favelas do Rio de Janeiro me parece evidente. É preciso a válvula de escape para a frustração e a pobreza. O Islã, nesse caso, cumpre esse papel.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O tabu da prostituição


O dogma só tem razão de ser diante da religião, religião aqui como conjunto de "verdades absolutas" contra as quais não cabe divergência. É porque é e ponto final. Há religiosos em todos os campos, da política à religião propriamente dita (claro). É o reino do pensamento binário, A ou B, isso ou aquilo, como se a vida não comportasse terceiras, quartas e quintas possibilidades distintas. Não há nada mais estranho ao marxismo do que o pensamento binário. A discussão e a colisão de concepções é, como diz Adam Schaff, "a alma da dialética" e, como tal, deve ser respeitada "sobretudo por marxistas". Mais que isso, prossegue Schaff,

é realmente estranho procurar substituir por decretos a busca pela verdade, o que só se pode realizar com luta, em geral com o uso do método de experiência e erro. E com que base? Poderíamos perdoar tal procedimento, em última análise, nos religiosos, mas jamais nos marxistas.

Grifo meu, todos os trechos d'"O Marxismo e o Indivíduo". O burocrata, o religioso, substituem o debate pela canetada, pelo decreto; não o marxista. Dito isso, falaremos aqui de um desses assuntos que têm recebido abordagem binária, a prostituição, que, se nunca saiu de evidência, está ainda mais na crista da onda em razão da "Lei Gabriela Leite", PL 4.211/ 12, projeto de lei de iniciativa de Jean Wyllys do PSOL (teor aqui), buscando regulamentar a atividade dos profissionais do sexo. A própria esquerda aborda o tema de forma rasteira, o que é imperdoável.

sábado, 30 de março de 2013

Direitos humanos e fundamentalismo


Continua, até o presente momento, a infâmia que é a presença do pastor Marco Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados. Tem as costas quentes, a poderosa frente parlamentar evangélica, com seus 70 milhões de votos, conforme seus líderes fazem questão de frisar como chantagem política (ver o post do Lungaretti). O objetivo dos fundamentalistas, ao se aferrarem com unhas e dentes à Comissão, não é outro senão refrear os debates e avanços no campo dos DH's no País. É a raposa tomando conta do galinheiro, é o discurso medieval tomando conta das minorias e reivindicações.

Reparem que falo em fundamentalistas; evito a generalização do termo "evangélicos". Se é verdade que em regra o discurso religioso está tomado de fundamentalismo, essa associação não é decisiva, pois temos religiosos que não só refutam o fundamentalismo como adotam uma posição progressista. Veja-se por exemplo o Hermes Fernandes (aqui) que, sem abrir mão de sua visão teológica, é quase um oásis no oceano obscurantista evangélico brasileiro. O fundamentalista, que tem Marco Feliciano como representante, é de outro estofo: é o "dono da verdade", a qual, por mandato divino, tem o DEVER de impor aos outros. Para o próprio bem dos pecadores, mesmo que não saibam disso. Assim, os sinistros torquemadas do século XXI vão ganhando espaço, nas rádios e tevês, no parlamento e, quem sabe em breve, queimando-nos a todos nas "santas fogueiras de Israel".

sexta-feira, 15 de março de 2013

Minha filosofia - II


Na ausência de um "sentido" metafísico, de um "plano" divino para nossas vidas, é muito fácil cair no desespero. Sem uma rede de segurança, somos obrigados a, antes de tudo, compreender e aceitar a realidade para, então, transformá-la (se possível). O materialismo aqui, afinal, deve ser o dialético de Marx, revolucionário, e não o materialismo -às raias, que contradição, do idealismo- contemplativo de Feuerbach. Essa nova abordagem leva a uma postura diferente diante da vida. Consiste nisto: se não há recompensas post mortem, se tudo se exaure com a morte (o ser humano sendo único e irrepetível, como diz Adam Schaff ; uma vez morto, nada nunca mais lhe será idêntico), temos que simplesmente não vale a pena esquentarmos a cabeça

O desespero dá lugar à serenidade. É questão apenas de mudar o foco.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Minha filosofia - I


Não é fácil passar de uma abordagem religiosa para a "arreligiosa" (mas não antirreligiosa, que é coisa diversa). Deixar de lado a crença -qualquer que seja- é duro, porque é justamente ela que nos dá a base, nos dá confiança, nos dá explicações sobre a vida e seus desígnios. Mas experimentemos abdicar disso; experimentemos aceitar que não há nada "por trás", nem vontade ou plano divino... A vida é isto que está aí. Boa ou ruim, melhorar ou piorar, é tudo questão de opinião e, principalmente, questão de nós (e apenas nós) agirmos para mudar. Isso se der para mudar: há coisas além da atuação humana, doenças incuráveis, por exemplo, e não há "milagre" que resolva. Não é difícil? Pois atribuir o insucesso ao karma, ao diabo, ao "foi assim porque Deus quis" é muito mais reconfortante. Abrir mão desse conforto é, num primeiro momento (e segundos e terceiros) angustiante. Mas talvez nada mais reste senão encarar os fatos, pois é preferível ser o angustiado realista ao tranquilo iludido. É que a verdade é sempre a melhor saída, a melhor opção; só ela é revolucionária.

Eu passei por esse processo. Quando, em dado momento de minha vida, cheguei à conclusão de que, se não há resposta, é porque simplesmente não há quem venha a responder. Ou, há mas não responde por força de seus "desígnios", e, se não há nada ou se há e não responde, não faz diferença alguma pragmaticamente falando. Deus existir, portanto, se torna supérfluo. E o que é supérfluo pode, e deve, ser descartado.

quinta-feira, 1 de março de 2012

No Céu dos bons ateus


Fazer qualquer coisa sob pressão, sob obrigação, tira um pouco, senão a totalidade, do mérito que eventualmente teríamos por aquela ação. Afinal não foi espontâneo: se agi, foi porque era obrigado a isso- um contrato, uma arma na cabeça, sentimento de culpa etc. Não há o desprendimento, não há conduta desinteressada. O livre-arbítrio acaba tolhido, amesquinhado. Isso não se aplica ao conceito hindu do dharma, tal como o compreendo em minha ótica. Pois no dharma, atuamos por achar que dada ação é o correto; é a convicção pessoal, íntima, que nos leva a escolher essa ou aquela conduta. Não há uma imposição exterior, alheia; ao contrário, é à nossa própria voz interna que ouvimos. Conjeturei sobre isso na postagem sobre Cannon.

A religião -qualquer uma delas- faz justamente isso: retira qualquer mérito das ações. Porque exige do crente que faça assim ou assado, caso contrário irá para o inferno. É a analogia da arma na cabeça. "Deus está vendo!", ouvimos quando crianças, para que nos comportemos. Ainda adultos repetem a ladainha, e ei-los homens tementes a Deus. O fato de um Deus precisar ser "temido" para ser obedecido mostra muita coisa. Não por acaso mais de uma pessoa chama a religião de camisa-de-força.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A divindade no volume máximo


Na cama no quarto escuro: para combater o tédio recorro ao aparelho de MP4. Fones devidamente encaixados, volume no tom razoável, vasculho as pastas virtuais atrás de um som adequado para o momento, e então me decido- entre o hardcore californiano do Bad Religion e o soft rock setentista do America, o chamado da Mãe África reverbera na escuridão do quarto: seleciono a pasta de pontos de Umbanda.

Uma coisa a considerar: eu disse Mãe África, mas não considero a Umbanda estritamente africana. Ela também é africana, mas exorbitou os limites geográficos; em verdade, é a única religião brasileira (com inclinação à universalidade), conforme agregou ao seu panteão ritualístico não só os negros, como a herança indígena e também a referência europeia (na trilogia ocultismo - catolicismo - kardecismo). É uma religião de oprimidos, e já no berço; desde o fato concreto dos escravos precisarem camuflar suas crenças recorrendo à terminologia católica até o fato, metafísico -portanto questão de crença- da manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas, na Federação Espírita de Niteroi em 1908, no Rio de Janeiro, contra a discriminação que as Entidades ditas pouco evoluídas sofriam nas mesas kardecistas, a Umbanda sempre falou aos estratos marginalizados da sociedade. É o materialismo histórico puro: o índio (na figura do Caboclo), o negro (como Preto-velho), o malandro marginalizado (como Exu), todas as figuras historicamente relegadas a segundo plano na vida social brasileira encontram, na Umbanda, espaço para respeito e deferência.

sábado, 19 de novembro de 2011

Questão de interpretação


Os direitos humanos (ou direitos fundamentais, ou direitos públicos subjetivos etc., haja vista a ausência de consenso sobre o termo) são conquistas da Humanidade que vieram em ciclos, ondas, as quais chamamos dimensões ("gerações", num entendimento já superado). Cada ciclo (dimensão) está relacionado a lutas históricas, em dado momento histórico.

A 1ª dimensão de direitos humanos trouxe as chamadas "liberdades clássicas"- de pensamento, culto, expressão, física também, naturalmente, contra os arbítrios da autoridade. Teve inspiração liberal, sendo gestada nas lutas burguesas contra o Antigo Regime absolutista. A burguesia também foi revolucionária, ora essas: Independência Norte-americana, Revolução Francesa. Ao lado do iluminismo como influência dessa primeira dimensão de direitos, os autores incluem também o cristianismo. Não o cristianismo de final do séc. XVIII, de um clero conservador e apoiador da monarquia absoluta, mas o cristianismo primitivo, emancipador e igualitário, dos primeiros apóstolos. Mas encontro em José Afonso da Silva ("Curso de Direito Constitucional Positivo") uma citação de Pérez Nuño, a lembrar que há "quem afirme que o cristianismo não supôs uma mensagem de liberdade, mas, especialmente, uma aceitação conformista do fato da escravidão humana".

O grifo é meu. Ópio do povo!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Divina comédia


Paulo Coelho -não riam- diz que quando o sujeito é ateu mesmo, ateu convicto, não perde tempo com religião, nem para conjecturar e nem mesmo para espezinhar. Portanto, aqueles ateus chatos, aqueles que voltam reiteradamente à carga contra a crença alheia, seriam ateus "confusos", mais querendo convencer a si próprios do que qualquer outra coisa. Parece-me verdade: afinal, quem não acredita, não acredita- e só. Vai encher o saco dos outros com isso por que? É como se ele quisesse se vingar de Deus, bradando que "Ele" não existe, e que quem acredita é idiota; é como a fábula das uvas verdes, o sujeito critica quem acredita porque no fundo queria acreditar também. É dor-de-cotovelo, uma dor-de-corno celestial. "Pai, Pai, por que me abandonaste?" Não acredito mais em você. Tô de mal. É ridículo um ateu atacar Deus. Atacar-se-á o que não existe?

No que me diz respeito, pouco importa a crença de uma pessoa, como critério para avaliar tal pessoa. Conheço estúpidos ateus e religiosos, reacionários ateus e religiosos, revolucionários uns e outros. Também não julgo os motivos que levaram tal pessoa à religião: é coisa de estrito foro íntimo. Uma leitura, uma experiência, a criação familiar, um -por que não?, acredite se quiser- chamado. E ei-la convertida. Se se sente feliz, que seja. Vejo pessoas se tolhendo em prol da religião. Não concordo, mas respeito: a medida deve ser a do próprio bem-estar emocional. O que é sacrifício para um pode ser libertador para outro, veneno pode ser remédio (e vice-versa), o que chamamos liberdade tem acepções diversas.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Impermanência (a vida como efêmera)


"Não há mal que sempre dure", como é mesmo o ditado? Alguns recorrem à religião -não vou falar aqui em religião mas classificarei o post sob esta etiqueta, até por falta de uma melhor, já que classificar como "Filosofia" me pareceu pretensioso- mas a mim, o método dialético, que como marxista utilizo, me protege contra o desespero. Porque o desespero se dá diante da situação insuportável que não podemos mudar e, ao contrário, entendo que não há situações que não possam mudar. A vida é uma eterna construção. "Tudo flui" (panta rei), como diz o longínquo Heráclito de Éfeso em V a. C., a ele se juntando, séculos depois, a voz de Karl Marx, que botou Hegel de cabeça para baixo: da Terra para o Céu e não o contrário.

Há uma marcha em curso. Talvez não graças ao Espírito, como presumem os idealistas (sem carga pejorativa, e sim epistemológica), mas graças ao nosso trabalho cotidiano, humano, concreto. O Homem é o agente da História, e nesse processo transforma o mundo e a si mesmo.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

2012? O mundo vai acabar em maio, mesmo


Passo pelo Largo da Carioca e recebo o papel. Só vejo do que se trata alguns metros depois, quando o leio enquanto espero o sinal abrir: é uma profecia apocalíptica, embasada numa série de cálculos numerológicos extraídos da Bíblia. Segundo a mesma, o mundo vai acabar em 21 de maio de 2011. Eu sei: dá vontade de rir. Por outro lado, isso coloca-nos uma pulga atrás da orelha. Não pelo medo do apocalipse (que viria em boa hora, dada a quantidade de contas a vencer no mês que vem), mas intrigados por haver quem, de fato, leve isso a sério.

Pego o panfleto. Vejo que há 722.500 dias entre 1º de abril de 33, que seria o dia da crucificação de Cristo, até 21 de maio de 2011 ("o dia em que o plano de salvação de Deus será completado e todos os cristãos verdadeiros serão arrebatados até o céu", sic). 722.500, por sua vez, é 5 x 10 x 17 x 5 x 10 x 17, sendo que o 5 significa a expiação ou redenção, o 10 (ou 100, que é 10 x 10) a perfeição e 17 significa, simplesmente, "Céu". Após toda essa matemática, o texto conclui com um desafio: "Na verdade, em face a todas essas informações surpreendentes, como alguém ousa disputar com a Bíblia em relação à verdade absoluta que o início do Dia do Julgamento junto com o arrebatamento acontecerá no dia 21 de maio de 2011?".

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