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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Minha filosofia - I


Não é fácil passar de uma abordagem religiosa para a "arreligiosa" (mas não antirreligiosa, que é coisa diversa). Deixar de lado a crença -qualquer que seja- é duro, porque é justamente ela que nos dá a base, nos dá confiança, nos dá explicações sobre a vida e seus desígnios. Mas experimentemos abdicar disso; experimentemos aceitar que não há nada "por trás", nem vontade ou plano divino... A vida é isto que está aí. Boa ou ruim, melhorar ou piorar, é tudo questão de opinião e, principalmente, questão de nós (e apenas nós) agirmos para mudar. Isso se der para mudar: há coisas além da atuação humana, doenças incuráveis, por exemplo, e não há "milagre" que resolva. Não é difícil? Pois atribuir o insucesso ao karma, ao diabo, ao "foi assim porque Deus quis" é muito mais reconfortante. Abrir mão desse conforto é, num primeiro momento (e segundos e terceiros) angustiante. Mas talvez nada mais reste senão encarar os fatos, pois é preferível ser o angustiado realista ao tranquilo iludido. É que a verdade é sempre a melhor saída, a melhor opção; só ela é revolucionária.

Eu passei por esse processo. Quando, em dado momento de minha vida, cheguei à conclusão de que, se não há resposta, é porque simplesmente não há quem venha a responder. Ou, há mas não responde por força de seus "desígnios", e, se não há nada ou se há e não responde, não faz diferença alguma pragmaticamente falando. Deus existir, portanto, se torna supérfluo. E o que é supérfluo pode, e deve, ser descartado.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

De socialismos de mercado


Joycemar Tejo
janeiro de 2013

Por que insistir em que façamos uma análise não-binária do mundo? Porque a forma mais fácil de encarar a vida é se deixar levar pela aparência, pelo apresentado, pelo dado. Mas o fácil não é sinônimo de acertado; muito pelo contrário, a realidade é complexa, sinuosa, não-linear. É dialética, em outras palavras.

O intróito é necessário porque este post -o primeiro do ano- tem como tema a China. Pois a China tem sido abordada sob uma ótica simplista, que ilude tanto a direita quanto a esquerda: essa ótica simplista que dá ao país a caracterização de "comunista". E por que não seria comunista, se é uma autodenominada "república popular" e tem um PC no poder? Ocorre que nem a autodenominação nem o bloco no poder -a "aparência"- bastam para configurar a "essência" de dada experiência. É esse o ponto.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Desejando cidades invisíveis


"As cidades invísiveis" de Calvino me lembram estrada, porque terminei de lê-las -as cidades- no ônibus rumo ao Rio de Janeiro, voltando de Resende. De uma cidade a outra, portanto, mergulhei no imaginário de Calvino, e tinha a impressão de rumar para elas -as invisíveis- e não para minha própria casa. E era uma sensação de estranhamento agradável: cidades que só poderiam existir na fantasia, todas repletas de características e traços próprios. Minhas favoritas eram Despina -onde coexistem camelos de selas bordadas e antenas de radar-, Ipásia, com sua simbologia ao contrário, e Teodora, prestes a ser retomada pela fauna esquecida -esfinges, grifos, quimeras, dragões e que tais.

Lembro da comunidade no Orkut, sobre a obra. Fiz uma intervenção, no que fui acompanhado pelos demais membros, sobre o espírito de melancolia que nos domina. Porque temos a vontade de conhecer aquelas cidades; queremos conhecer cada viela e beco, avenidas e, mais que isso, explorar casa a casa. Mas não existem. São invisíveis também sob esse aspecto, o da impossibilidade de concretização. E o impossível machuca.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Direito Penal máximo e o escroque arrependido


Quem participa de um jogo deve se submeter a suas regras. Não há mistério nisso: se jogo futebol, sei que não posso fazer gols com as mãos. É por isso que não tenho pena dos capitalistas arruinados nas transações do mercado financeiro. Sabem no que estão se metendo, auferem (muitos) lucros daquilo; não podem reclamar, portanto, quando a maré volta. Daí não vejo crime algum no personagem de Michael Douglas em Wall Street: o dinheiro nunca dorme, a menos que coloquemos as coisas claramente e reconheçamos que todo o sistema financeiro é criminoso. Golpes e rasteiras são inerentes, fazem parte do meio. Uns de forma mais "legal", outros "ilegalmente", o que temos é a mesma coisa, cobra engolindo cobra na lei da selva capitalista.

Reiteradamente tornarei à carga, acerca da hipocrisia que é a mentalidade do "direito penal máximo". Para tudo inventam um tipo penal; basta o clamor "popular", basta que se contrarie interesses e eis o direito penal assomando ameaçador. Esquecem que o Direito Penal (em maiúsculas) é a ultima ratio, a última das últimas armas à disposição do Estado. Porque envolve algo muito caro ao ser humano: a liberdade, direito fundamental inscrito a ferro e fogo na epopeia da Humanidade. Perdoem o tom grandiloquente- mas é isso mesmo.

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