Quem assistir no Youtube aos vídeos do ISIS -Islamic State of Iraq and Syria-, com louvores a suas vitórias sobre o Hezbollah, sobre o exército regular iraquiano etc., pensará que o Califado Mundial é quase uma realidade. Propaganda é a alma do negócio, afinal; e qualquer organização que procura a hegemonia (não apenas militar, mas também no sentido gramsciano, o da busca do consenso) deve "botar a cara".
Mas o assunto do post, após tanto tempo de inatividade do blog, não é agitprop. É uma observação que gostaria de fazer, justamente sobre os conflitos no mundo islâmico. Deixando claro que não pretendo fazer -o que não quer dizer que o risco não exista- como os "orientalistas" de Edward Said, que abordam o tema através de suas preconceituosas e estereotipadas lentes de ocidentais.
A observação é a seguinte: o dito fundamentalismo islâmico moderno nada mais é que expressão de dada circunstância histórico-material. É uma obviedade dizer isso, claro, mas nunca é demais repetir certas platitudes (nome de um de meus outros blogs, aliás). A Irmandade Muçulmana surge no Egito no fim dos anos 20 como forma de resistência contra a presença britânica e os valores ocidentais. Quando o Hamas, em sua constituição, se declara um braço da Irmandade, traz o espírito para a Palestina ocupada, dentro da resistência diante do sionismo. Os jovens montanheses pobres do Afeganistão poucos horizontes possuem senão se engajar numa milícia armada; a analogia com a garotada proletária das favelas do Rio de Janeiro me parece evidente. É preciso a válvula de escape para a frustração e a pobreza. O Islã, nesse caso, cumpre esse papel.



