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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Considerações sobre o PT - I


Temos necessidade de rótulos. E isso não é ruim, na medida em que nos ajude na tarefa de compreender o mundo. O problema é quando o rótulo se torna mais importante que a coisa rotulada; é quando o significante não corresponde mais ao significado, mas nos recusamos a disassociá-los. É aquele trecho do "Romeu e Julieta" de Shakespeare: se "rosa", a flor, tivesse outro nome, continuaria exalando o mesmo perfume. Poderíamos chamá-la de qualquer outra forma. Mas se "rosa", o termo, se refere para nós àquela flor que exala perfume, não podemos chamar assim aos, digamos, cactos. Que, mesmo chamados de "rosas", continuarão verdes, ásperos e espinhosos.

Esses jogos terminológicos costumam confundir muito na política, quando se dá ao nome mais importância que à prática concreta. Olhem a sopa de letrinhas partidária brasileira: "democracia", "popular", "social" etc. abundam nas siglas, sem que haja a menor correlação fática entre o nome e a práxis. Daí se banaliza o conceito: muda-se o nome e, como a rosa de Shakespeare, o partido continuará sendo a mesma coisa. O "Partido Democrático Popular" é o mesmo "Partido Social Popular", que... em nada se diferencia do "Partido Popular da Democracia Social". As combinações são infinitas.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Sobre a imprensa "livre"


Em seu tempo na "Gazeta Renana" (textos da época aqui), Marx destacava que a imprensa livre é o olhar onipresente do povo; sendo uma doutrina libertária (nunca é demais repetir), o marxismo não poderia sustentar outra coisa que não a liberdade de imprensa (e de expressão). Ocorre, contudo, é que, sendo a sociedade cindida em classes, tal liberdade acaba por ser relativizada ou, mesmo (e principalmente) anulada pelos grupos dominantes. Daí o lembrete de Lênin ("Que fazer?"):

A liberdade é uma grande palavra, mas foi sob a bandeira da liberdade da indústria que foram empreendidas as piores guerras de pilhagem, foi sob a bandeira da liberdade do trabalho, que os trabalhadores foram espoliados. A expressão "liberdade de crítica", tal como se emprega hoje, encerra a mesma falsidade.

Não pode haver liberdade plena (na medida em que haja direitos plenos) na sociedade de classes. Por ora, lidamos com o que temos: e mesmo o ordenamento jurídico burguês reconhece a liberdade de expressão (que anda junto com a de pensamento, afinal não adianta pensar se não se pode externar), conquista da primeira dimensão de direitos humanos, de matriz liberal/ iluminista. Na nossa Constituição, aparece por exemplo nos incisos IV e IX do art. 5º (cláusula pétrea, portanto, o núcleo constitucional intangível) e, mais adiante, no capítulo dedicado à comunicação social (art. 220 e seguintes). O grande desafio ainda é fazer com que, limitada que seja, essa liberdade seja respeitada e cumprida. Pois é evidente que não é. Basta que se veja a grande mídia, impressa e televisiva, para que se observe o truísmo: todos reproduzem o discurso dominante. E não há, salvo na mídia marginal (aqui a internet tem papel imprescindível), espaço para a visão alternativa.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Sobre educação (e "socialistas")


Com muita satisfação li a entrevista do matemático francês Cédric Villani, n'"O Globo". O sujeito, considerado um dos maiores matemáticos dos últimos tempos, diz não só que, na educação matemática, mais importante que o conhecimento adquirido é o hábito de pensar, como também que o melhor método de ensino é o do próprio professor. Perfeito, é isso mesmo. Basta de dogmas e cartilhas limitadores- são emburrecedores, e é bom que haja pessoas ilustradas (mesmo que isso reverbere pouco na Academia) atentas a isso. Aliás, matemática, essa injustiçada elegante. Nada mais hermético para mim. Culpa minha, talvez, ou dos professores cheios de dogmas e cartilhas limitadores.

Muito a propósito, dia desses me lembrava da frase de Clóvis Beviláqua, sobre como "o que se deve apurar na educação jurídica não é a expansão cerebral, e sim a fortaleza de espírito, a resistência do caráter" (já citada no blog aqui e, ei, estou ficando repetitivo). Mas a questão -e devemos ser repetitivos nisso- é que o conhecimento deve ter como finalidade a atuação concreta; não apenas absorver, mas digerir criticamente o que é absorvido. E cuspi-lo fora, caso não sirva. Do contrário somos autômatos reproduzindo comportamentos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Beatnik bitolado


O filme "Na estrada", de Walter Saller (aqui), não é exatamente igual à obra que lhe inspira, "On the road", o clássico beat de Kerouac. Ao menos dentro do que me vem à memória: li o livro há certo tempo, enquanto me recuperava de uma cirurgia na tireoide. Quando se está atrelado a uma cama, nada melhor que leituras sobre aventuras na estrada, e até hoje me lembro da expressão "ar lírico do Nebraska", e desde então, em meu inconsciente, o Nebraska -que nunca visitei e talvez nunca visitarei- sempre será dotado de um ar lírico. Mas o filme não é exatamente igual -as cenas de teor sexual, principalmente, pura licença poética- e até aí nada demais, pois é raríssimo produção cinematográfica que seja fiel à obra original, e já falamos disso no blog (aqui).

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