segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O egoísmo que derruba prédios


Desço pela Av. Rio Branco, no centro do Rio, após a sessão semanal do Instituto dos Advogados Brasileiros. Vejo de longe, na altura da Almirante Barroso, a densa nuvem, como se tivessem soltado muitos, muitos fogos. É asfixiante: para me aproximar (eu e os demais curiosos que começavam a se aglomerar) precisei levar o lenço ao rosto. Uma patrulha já começava a fechar o trânsito, e perguntei ao policial o que se passava. A resposta, algo incrédula, foi "um prédio caiu". Muita incredulidade por parte de todos, mesmo diante da montanha de escombros diante dos olhos. Muita gente já se aproximava, eu inclusive, ávidos para entender o que se passara. Como um prédio tão sólido, que há pouco estava lá firme e forte, em uma fração de segundos se reduzira a uma pilha disforme de concreto? Subitamente alguém gritou e, como é natural em situações dessas, bastou que alguém corresse para que toda a multidão (eu inclusive, também) corresse para longe do local- mas foi alarme falso, não houve mais nenhum desmoronamento. Daí os carros de bombeiros começaram a chegar e a área foi isolada, cortando o barato dos curiosos. Resolvi ir embora: era mais fácil, naquele momento, se informar através da imprensa que já começava a apurar os fatos (uma cobertura sobre os, não um, mas três prédios que desabaram naquela fatídica noite de 25/ 01, aqui).

A morte, quando vem de modo abrupto, repentino, traz sempre consigo o choque. Tragédias imprevisíveis (se era previsível e nada foi feito para que seja evitada, não era uma tragédia e sim um crime) mostram como somos impotentes. De uma hora para outra, sem o menor aviso: ei-nos misturados ao aço retorcido, sob pilhas de entulho, amassados nos escombros. Não se trata de ser mórbido, mas penso que esporadicamente é bom refletirmos sobre essas coisas: para colocarmos nossa arrogância no lugar. Uma fração de segundos e nossos planos são esmagados por toneladas de concreto.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A divindade no volume máximo


Na cama no quarto escuro: para combater o tédio recorro ao aparelho de MP4. Fones devidamente encaixados, volume no tom razoável, vasculho as pastas virtuais atrás de um som adequado para o momento, e então me decido- entre o hardcore californiano do Bad Religion e o soft rock setentista do America, o chamado da Mãe África reverbera na escuridão do quarto: seleciono a pasta de pontos de Umbanda.

Uma coisa a considerar: eu disse Mãe África, mas não considero a Umbanda estritamente africana. Ela também é africana, mas exorbitou os limites geográficos; em verdade, é a única religião brasileira (com inclinação à universalidade), conforme agregou ao seu panteão ritualístico não só os negros, como a herança indígena e também a referência europeia (na trilogia ocultismo - catolicismo - kardecismo). É uma religião de oprimidos, e já no berço; desde o fato concreto dos escravos precisarem camuflar suas crenças recorrendo à terminologia católica até o fato, metafísico -portanto questão de crença- da manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas, na Federação Espírita de Niteroi em 1908, no Rio de Janeiro, contra a discriminação que as Entidades ditas pouco evoluídas sofriam nas mesas kardecistas, a Umbanda sempre falou aos estratos marginalizados da sociedade. É o materialismo histórico puro: o índio (na figura do Caboclo), o negro (como Preto-velho), o malandro marginalizado (como Exu), todas as figuras historicamente relegadas a segundo plano na vida social brasileira encontram, na Umbanda, espaço para respeito e deferência.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

De socialismos monárquicos


Morre Kim Jong-Il da Coreia do Norte. Como é de praxe, penso que ao analisar a experiência norte-coreana devemos evitar saídas simplistas ou reducionistas: o método deve ser o dialético e não o binário. Vejo muitos desprezando as informações que nos chegam do país, porque partiriam dos meios de comunicação burgueses: organizações Globo, Veja etc. Daí vão se refugiar, ora ora, nos meios de comunicação oficiais... norte-coreanos. Em ambos os casos a imparcialidade -se é que há órgão de informação imparcial desde que a imprensa existe- fica comprometida, e as coisas acabam por se reduzir a uma escolha, uma opção, acredito "nisto" mas não "naquilo".

A posição dos marxistas revolucionários é apenas uma: ao lado da classe trabalhadora. Os comunistas não têm outros interesses que não sejam os interesses do proletariado ("Manifesto Comunista"), e o proletariado é uma classe, não um partido ou um indivíduo. A luta é pela emancipação da classe trabalhadora -que redunda na emancipação da espécie humana como um todo- e se essa tarefa é colocada nas mãos de um líder ou partido, não há emancipação em absoluto: continuamos rebanhos à espera de messias. Já na Coreia do Norte o culto à personalidade exorbita, por incrível que pareça, o stalinismo soviético (que produziu editoriais do Pravda como "se você estiver cansado, pense em Stálin e encontrará novas forças..."): basta que se diga que o marco inicial do calendário do país é o nascimento de Kim Il-Sung, fundador do socialismo norte-coreano (e uma experiência socialista ter um "fundador" já é sintoma claro de deformação) e que de Kim Il-Sung o poder supremo passou a seu filho, o recém-falecido Kim Jong-Il, e deste para seu rebento, Kim Jong-Un.

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