segunda-feira, 25 de abril de 2011

Insistindo: tortura não é anistiável (apesar do STF)


Não costumo julgar ninguém. E acho que ninguém deveria: uma das lições bíblicas mais certeiras (sim, elas existem) é aquela sobre como costumamos "ver o cisco no olho alheio e não ver a trave no nosso próprio". Como acredito muito na individualidade (e como marxista, não poderia ser diferente), penso que não se pode, com acerto, saber o que determinada pessoa sentiu em dada situação; no máximo, podemos conjeturar, imaginar, filosofar. Mas "cada um sabe onde lhe aperta o sapato", de modo que, de fora, é muito fácil dizer como fulano deveria ter falado ou agido. Difícil é estar no lugar do fulano.

Por exemplo, não condeno os presos políticos da ditadura militar brasileira que, sob tortura, delataram companheiros. Seria fácil, aqui da minha cadeira defronte ao computador, falar o quanto foram covardes, frouxos, vis, traidores etc. Mas só quem passou pela situação sabe. Apenas posso imaginar quais efeitos choques elétricos no saco e unhas arrancadas a alicate teriam sobre mim, mas jamais saber, exatamente, o que é passar por isso. Então não recrimino os torturados delatores. Eu próprio não sei qual seria meu limite. É muito cômodo bradar aqui em segurança, "covardes, traidores", mas...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Lições de cinema


Um exemplo comum, para mim, de humor involuntário (aquele que dá vontade de rir quando quer passar por sério), é a famosa cena de "discurso pré-batalha" nos filmes. Os exércitos em formação -sejam medievais, cavalaria, tropas estelares etc.- e vem o comandante com aqueles inspirados discursos, falando geralmente em "honra", "coragem", "liberdade". Em regra é algo tão meloso, tão piegas, que acabo rindo aqui comigo, enquanto os valentes soldados cerram os dentes ouvindo a arenga do general.

Isso me veio de novo à mente na última semana, quando revi 300 e Coração Valente (este, pela quinquelhésima vez; sou fã mesmo). De certo modo, creio que sempre houve discursos ufanistas pré-batalha. Na "Ilíada" vemos reiteradamente Heitor chamando ao combate, mas eram rápidas admoestações, sem um pingo de pieguice (tirando a parte em que ele diz que "lutar pela pátria é o único dever", ou coisa do tipo), assim como na "Eneida" me lembro de um discurso de Turno animando seus soldados- dizendo algo como, "ei, vamos mostrar pros troianos que desta vez eles estão enfrentando algo pior que os gregos", sendo retribuído -isso Virgílio não fala, mas podemos presumir- com aqueles "uhu!" animados da soldadesca. Contudo, repito: nada piegas como nos cinemas.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

2012? O mundo vai acabar em maio, mesmo


Passo pelo Largo da Carioca e recebo o papel. Só vejo do que se trata alguns metros depois, quando o leio enquanto espero o sinal abrir: é uma profecia apocalíptica, embasada numa série de cálculos numerológicos extraídos da Bíblia. Segundo a mesma, o mundo vai acabar em 21 de maio de 2011. Eu sei: dá vontade de rir. Por outro lado, isso coloca-nos uma pulga atrás da orelha. Não pelo medo do apocalipse (que viria em boa hora, dada a quantidade de contas a vencer no mês que vem), mas intrigados por haver quem, de fato, leve isso a sério.

Pego o panfleto. Vejo que há 722.500 dias entre 1º de abril de 33, que seria o dia da crucificação de Cristo, até 21 de maio de 2011 ("o dia em que o plano de salvação de Deus será completado e todos os cristãos verdadeiros serão arrebatados até o céu", sic). 722.500, por sua vez, é 5 x 10 x 17 x 5 x 10 x 17, sendo que o 5 significa a expiação ou redenção, o 10 (ou 100, que é 10 x 10) a perfeição e 17 significa, simplesmente, "Céu". Após toda essa matemática, o texto conclui com um desafio: "Na verdade, em face a todas essas informações surpreendentes, como alguém ousa disputar com a Bíblia em relação à verdade absoluta que o início do Dia do Julgamento junto com o arrebatamento acontecerá no dia 21 de maio de 2011?".

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Liberdade de expressão e seus limites


Jair Bolsonaro metido, de novo, em polêmicas. Causa espanto o baixo nível do Legislativo brasileiro (do Legislativo?, não, da vida política brasileira em geral). Perto de declarações homofóbicas e racistas, a eleição de um Tiririca parece até mesmo inocente e irrelevante. Mas Bolsonaro e Tiririca acabam sendo, em um certo sentido, sintomas da mesma sociedade: alienada. Não há adjetivo melhor.

Mas vejam bem: não quero compará-los. O palhaço-cantor é inofensivo perto do militar fascista. Ao menos um é declaradamente palhaço.

Falam em "liberdade de expressão". Como marxista, e portanto libertário, sou o primeiro a defendê-la. Repudio qualquer tentativa de cerceá-la, e critico abertamente as experiências autoritárias que, em nome do marxismo, apenas fizeram por vilipendiá-lo. Não se pode se propor o combate às alienações justamente alienando o indivíduo- em nome do Estado, do Partido, ou o que quer que seja. Se, segundo Marx, o socialismo é um mundo onde o homem se sente em casa (usando as palavras de Fromm), não se pode conceber um socialismo onde o indivíduo não pense por si só. Caso contrário, será sempre um estranho, um intruso- e não o proprietário de fato e de direito desse mundo.

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