sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Desejando cidades invisíveis


"As cidades invísiveis" de Calvino me lembram estrada, porque terminei de lê-las -as cidades- no ônibus rumo ao Rio de Janeiro, voltando de Resende. De uma cidade a outra, portanto, mergulhei no imaginário de Calvino, e tinha a impressão de rumar para elas -as invisíveis- e não para minha própria casa. E era uma sensação de estranhamento agradável: cidades que só poderiam existir na fantasia, todas repletas de características e traços próprios. Minhas favoritas eram Despina -onde coexistem camelos de selas bordadas e antenas de radar-, Ipásia, com sua simbologia ao contrário, e Teodora, prestes a ser retomada pela fauna esquecida -esfinges, grifos, quimeras, dragões e que tais.

Lembro da comunidade no Orkut, sobre a obra. Fiz uma intervenção, no que fui acompanhado pelos demais membros, sobre o espírito de melancolia que nos domina. Porque temos a vontade de conhecer aquelas cidades; queremos conhecer cada viela e beco, avenidas e, mais que isso, explorar casa a casa. Mas não existem. São invisíveis também sob esse aspecto, o da impossibilidade de concretização. E o impossível machuca.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Direito Penal máximo e o escroque arrependido


Quem participa de um jogo deve se submeter a suas regras. Não há mistério nisso: se jogo futebol, sei que não posso fazer gols com as mãos. É por isso que não tenho pena dos capitalistas arruinados nas transações do mercado financeiro. Sabem no que estão se metendo, auferem (muitos) lucros daquilo; não podem reclamar, portanto, quando a maré volta. Daí não vejo crime algum no personagem de Michael Douglas em Wall Street: o dinheiro nunca dorme, a menos que coloquemos as coisas claramente e reconheçamos que todo o sistema financeiro é criminoso. Golpes e rasteiras são inerentes, fazem parte do meio. Uns de forma mais "legal", outros "ilegalmente", o que temos é a mesma coisa, cobra engolindo cobra na lei da selva capitalista.

Reiteradamente tornarei à carga, acerca da hipocrisia que é a mentalidade do "direito penal máximo". Para tudo inventam um tipo penal; basta o clamor "popular", basta que se contrarie interesses e eis o direito penal assomando ameaçador. Esquecem que o Direito Penal (em maiúsculas) é a ultima ratio, a última das últimas armas à disposição do Estado. Porque envolve algo muito caro ao ser humano: a liberdade, direito fundamental inscrito a ferro e fogo na epopeia da Humanidade. Perdoem o tom grandiloquente- mas é isso mesmo.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Considerações sobre o PT - II


É evidente que a caracterização do PT como um partido burguês com influência de massas é adequada. Jamais, desde sua origem, foi concebido como uma partido socialista revolucionário; o que havia -e isso é coisa bem diferente- eram tendências revolucionárias, mas jamais a ponto de constituirem um todo homogêneo, e mesmo essas tendências eram minoritárias. Lincoln Secco ("História do PT. 1978- 2010", Ateliê Editorial), nesse sentido, destaca "que o PT surgiu de pelo menos seis fontes diversas", a saber: o novo sindicalismo, Igreja Católica, egressos do MDB, intelectuais liberais, organizações trotskystas (fazendo entrismo) e remanescentes da luta armada. Esse balaio de gatos não poderia dar boa coisa, culminando com a adesão pura e cabal à direita ao longo dos anos 90 com a ascensão do grupo de Lula e Dirceu e a submissão acrítica à institucionalidade burguesa.

Ter influência de massas, porém, dá um plus (ou um "plus a mais", sic, como dizia um professor meu, promotor de justiça) ao PT, uma vantagem em relação aos demais partidos burgueses. Afinal, essa influência de massas habilita o PT a implementar ataques à classe trabalhadora que a direita tradicional (sem tal influência) não conseguiria. A Reforma da Previdência de 2003 é só um exemplo. Com os movimentos sociais manietados, encontra o caminho livre, ao contrário do que se daria sob o demotucanato.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Considerações sobre o PT - I


Temos necessidade de rótulos. E isso não é ruim, na medida em que nos ajude na tarefa de compreender o mundo. O problema é quando o rótulo se torna mais importante que a coisa rotulada; é quando o significante não corresponde mais ao significado, mas nos recusamos a disassociá-los. É aquele trecho do "Romeu e Julieta" de Shakespeare: se "rosa", a flor, tivesse outro nome, continuaria exalando o mesmo perfume. Poderíamos chamá-la de qualquer outra forma. Mas se "rosa", o termo, se refere para nós àquela flor que exala perfume, não podemos chamar assim aos, digamos, cactos. Que, mesmo chamados de "rosas", continuarão verdes, ásperos e espinhosos.

Esses jogos terminológicos costumam confundir muito na política, quando se dá ao nome mais importância que à prática concreta. Olhem a sopa de letrinhas partidária brasileira: "democracia", "popular", "social" etc. abundam nas siglas, sem que haja a menor correlação fática entre o nome e a práxis. Daí se banaliza o conceito: muda-se o nome e, como a rosa de Shakespeare, o partido continuará sendo a mesma coisa. O "Partido Democrático Popular" é o mesmo "Partido Social Popular", que... em nada se diferencia do "Partido Popular da Democracia Social". As combinações são infinitas.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Sobre a imprensa "livre"


Em seu tempo na "Gazeta Renana" (textos da época aqui), Marx destacava que a imprensa livre é o olhar onipresente do povo; sendo uma doutrina libertária (nunca é demais repetir), o marxismo não poderia sustentar outra coisa que não a liberdade de imprensa (e de expressão). Ocorre, contudo, é que, sendo a sociedade cindida em classes, tal liberdade acaba por ser relativizada ou, mesmo (e principalmente) anulada pelos grupos dominantes. Daí o lembrete de Lênin ("Que fazer?"):

A liberdade é uma grande palavra, mas foi sob a bandeira da liberdade da indústria que foram empreendidas as piores guerras de pilhagem, foi sob a bandeira da liberdade do trabalho, que os trabalhadores foram espoliados. A expressão "liberdade de crítica", tal como se emprega hoje, encerra a mesma falsidade.

Não pode haver liberdade plena (na medida em que haja direitos plenos) na sociedade de classes. Por ora, lidamos com o que temos: e mesmo o ordenamento jurídico burguês reconhece a liberdade de expressão (que anda junto com a de pensamento, afinal não adianta pensar se não se pode externar), conquista da primeira dimensão de direitos humanos, de matriz liberal/ iluminista. Na nossa Constituição, aparece por exemplo nos incisos IV e IX do art. 5º (cláusula pétrea, portanto, o núcleo constitucional intangível) e, mais adiante, no capítulo dedicado à comunicação social (art. 220 e seguintes). O grande desafio ainda é fazer com que, limitada que seja, essa liberdade seja respeitada e cumprida. Pois é evidente que não é. Basta que se veja a grande mídia, impressa e televisiva, para que se observe o truísmo: todos reproduzem o discurso dominante. E não há, salvo na mídia marginal (aqui a internet tem papel imprescindível), espaço para a visão alternativa.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Sobre educação (e "socialistas")


Com muita satisfação li a entrevista do matemático francês Cédric Villani, n'"O Globo". O sujeito, considerado um dos maiores matemáticos dos últimos tempos, diz não só que, na educação matemática, mais importante que o conhecimento adquirido é o hábito de pensar, como também que o melhor método de ensino é o do próprio professor. Perfeito, é isso mesmo. Basta de dogmas e cartilhas limitadores- são emburrecedores, e é bom que haja pessoas ilustradas (mesmo que isso reverbere pouco na Academia) atentas a isso. Aliás, matemática, essa injustiçada elegante. Nada mais hermético para mim. Culpa minha, talvez, ou dos professores cheios de dogmas e cartilhas limitadores.

Muito a propósito, dia desses me lembrava da frase de Clóvis Beviláqua, sobre como "o que se deve apurar na educação jurídica não é a expansão cerebral, e sim a fortaleza de espírito, a resistência do caráter" (já citada no blog aqui e, ei, estou ficando repetitivo). Mas a questão -e devemos ser repetitivos nisso- é que o conhecimento deve ter como finalidade a atuação concreta; não apenas absorver, mas digerir criticamente o que é absorvido. E cuspi-lo fora, caso não sirva. Do contrário somos autômatos reproduzindo comportamentos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Beatnik bitolado


O filme "Na estrada", de Walter Saller (aqui), não é exatamente igual à obra que lhe inspira, "On the road", o clássico beat de Kerouac. Ao menos dentro do que me vem à memória: li o livro há certo tempo, enquanto me recuperava de uma cirurgia na tireoide. Quando se está atrelado a uma cama, nada melhor que leituras sobre aventuras na estrada, e até hoje me lembro da expressão "ar lírico do Nebraska", e desde então, em meu inconsciente, o Nebraska -que nunca visitei e talvez nunca visitarei- sempre será dotado de um ar lírico. Mas o filme não é exatamente igual -as cenas de teor sexual, principalmente, pura licença poética- e até aí nada demais, pois é raríssimo produção cinematográfica que seja fiel à obra original, e já falamos disso no blog (aqui).

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Aliados e seus equívocos


A companheira Lena, pelo Facebook, comenta, em tom de brincadeira, que a LIT (organização internacional à qual o PSTU é vinculado) é agente da CIA, e cita o entusiasmo da corrente com a "revolução democrática" que estaria se dando na Síria. Esse comentário não é novo -tenho ouvido-o reiteradamente de diversos companheiros, como gracejo ou mesmo dito seriamente- e, por considerá-lo injusto, pus-me a pensar sobre seu significado e as implicações envolvidas. As perguntas essencialmente colocadas são: o que é exigível de um aliado, que tipos de erro são toleráveis neste e, mesmo, se são necessários aliados para o processo revolucionário.

O processo revolucionário, por ser justamente um processo, uma sucessão não-linear de acontecimentos (e que jamais encontrará um formato "pronto"; também nesse sentido pode-se falar em revolução permanente) requer uma pluralidade de agentes. É impossível (ou ao menos improvável) que um único agrupamento, forte e estruturado que seja, encontre condições objetivas de realizar sozinho a superação de um sistema de produção. Mesmo porque a tarefa não se exaure com a tomada de poder, ao contrário. As revoluções exitosas na História são pródigas em exemplos de como as forças revolucionárias confluem- como a Russa, bolcheviques, socialistas revolucionários e mencheviques de esquerda atuando em conjunto.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Se casamento fosse bom não precisava de testemunha


Tarde da noite, procuro na Wikipedia informações sobre Otto Rank, o psicanalista discípulo e amigo -e depois rival- de Freud. É a descrição que Anaïs Nin, em seus diários, faz dele que desperta minha curiosidade, o modo como narra seu amor pelo mesmo: idealizado e não concreto, o Rank intelectual mas não o homem de carne e osso. Ama o espírito: fisicamente é um homenzinho sem atrativos. E, justamente, a vontade de Rank de tornar o amor real funciona como estopim para a ruptura entre os dois. Rank, como dito, também rompera com Freud. O velho mestre não suportara a heresia do discípulo, com sua tese sobre o estado pré-Edipiano (e a dor do nascimento) como o centro das neuroses enquanto que, para Freud, é o complexo de Édipo o ponto nodal de sua teoria. Eis armada a distensão. O que posso falar, sobre isso -do alto da ignorância de um leigo- é que, complexa e contraditória como é, a psiquê humana não pode prescindir de teses complexas e contraditórias como ela própria. Pode-se chegar perto, mas o ser humano será sempre um eterno desconhecido. E os psicanalistas estarão sempre brigando entre si.

Mas, avancemos da psicanálise para os meandros mais sombrios da psiquiatria forense. A mídia sensacionalista fez a festa com o mórbido caso do executivo executado (sem trocadilho) pela própria esposa (notícia, aqui). Os detalhes macabros abundaram: esquartejamento e ocultação de cadáver, tudo isso permeado pela frieza psicopática da assassina. Engrossando o caldo, era ex-prostituta e o motivo seria ciúmes, dado que o executivo teria sido flagrado em um caso amoroso. O caráter psicopático -repito, sou leigo- fica evidenciado pelo modus operandi. Podemos entender (o que não é a mesma coisa que justificar) um homicídio, em um momento impensado; o sangue esquenta, a arma está à mão- e eis o ato consumado. Mas, enquanto alguém normal se desesperaria pelo ato inconsequente e chamaria a polícia, o psicopata (no caso, a esposa assassina) esquarteja a vítima, condiciona as partes em malas e as despacha pela estrada. A vítima, o pai da própria filha. E, claro, ainda reservando tempo para limpar o apartamento e ocultar tudo da babá, que chegara para trabalhar. Quem age assim não é alguém normal, mentalmente falando. Outro caso recente de crime passional foi a morte da irmã de Ângela Bismarchi (notícia aqui) em uma discussão envolvendo o ex-marido, que invadira sua casa onde se encontrava com o atual namorado.

domingo, 10 de junho de 2012

A Comissão da Verdade (e a questão da guerrilha)


A Comissão da Verdade veio com um grande oba-oba, ex-presidentes reunidos e toda festa acompanhada pela mídia (aqui). Não é preciso dizer que o espírito "festivo" já mostra a que veio a Comissão, cândida e pacífica, conforme as palavras de seu coordenador Gilson Dipp: "não haverá revanchismo". Justiça é revanchismo, no jargão dos militares e de seus lacaios civis. A tortura deve passar em branco, caso contrário se estará tratando de revanche. Parece enojante; e é. Daí a necessidade urgente de deixar claro à população que o trabalho não se consumou com a instauração da Comissão mas, ao contrário, acaba de começar. É preciso fazer com que ela cumpra a tarefa histórica pendente, não só a apuração mas a punição dos crimes da ditadura. Mesmo porque, juridicamente falando, não se pode conceber que crimes lesa-Humanidade sejam passíveis de "prescrição". Tampouco considerá-los "políticos", e portanto anistiáveis, como na infame decisão do Supremo Tribunal Federal (já falamos disso no blog, aqui).

Há uma coisa importante a se falar. Quando tocamos na tecla da punição dos criminosos do regime, as polianas e os bons moços bradam, "os dois lados têm que ser apurados e punidos!" Dois lados, como se houvesse paridade! Como se o ato de resistência fosse igual ao ato agressor que levou à resistência. Como se meia dúzia, algumas dezenas que sejam, de "guerrilheiros", em sua maioria jovens estudantes de classe média -cordeiros em pele de lobo, como a turma do Inverta (PCML) acertadamente definiu, em "O enigma da Esfinge"- tivesse o mesmo potencial destruidor da máquina estatal e suas forças armadas, auxiliadas pela CIA e todo o know how do imperialismo mundial. Os dois lados! Davi e Golias. Estilingues contra o tanque de guerra. Os quase inócuos foguetes artesanais do Hamas e os bombardeiros de última geração do sionismo israelense, os "dois lados" a serem punidos. Basta que se tenha bom senso para perceber o ridículo disso. A punição, portanto, é contra o agente "público" que assassinou, torturou, estuprou e executou. O "outro lado" já foi punido, com o assassinato, a tortura, o estupro e a execução.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Da redução da maioridade penal


Eu adoto o enfoque do direito penal mínimo: sou contra a criação de novos tipos penais, contra mais e maiores penas, enfim, contra o recrudescimento da política criminal. Há dois bons motivos para isso: o primeiro, de sentido mais pragmático, é a evidência cabal de que o direito penal não resolve as mazelas sociais; as piores penas e os piores cárceres são inúteis como política preventiva. Além de inúteis, mais leis penais servem também para desmoralizar o próprio sistema jurídico-penal: a vulgarização do direito penal leva ao seu descrédito, como diz Nucci. O segundo motivo é uma opção classista: o direito penal tem como "cliente" prioritário a classe trabalhadora. É contra o proletariado que o "longo braço da lei" desce o sarrafo com mais afã, e é o proletariado que lota os presídios (e não os Naji Nahas e Daniel Dantas da vida). O direito penal, assim, acaba servindo, aos grupos dominantes, como uma medida de higienização social. Por isso, também, sou a favor de um direito penal mínimo.

Contudo, há um assunto, polêmico, com o qual estou inclinado (mas não convencido) a concordar. Se implementado, significará justamente o recrudescimento da política criminal. É a redução da maioridade penal. E por que eu estaria inclinado a concordar com isso? Posso apresentar três argumentos favoráveis.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Teoria para a prática


Na seção "textos indicados" disponibilizo, dentro outros, um escrito pelo juiz federal cearense George Marmelstein Lima, sobre como o espírito inventivo acaba amordaçado pelas convenções acadêmicas. A intenção é falar, discutir, desafiar; mas a forma, maldita seja, as convenções cerceiam tudo isso, e acabamos cordeiros desejosos de agradar à banca e ao orientador. Há todo um formato preestabelecido que deve ser obedecido, mesmo que isso signifique o sacrifício da criatividade e da originalidade- do pensamento livre, enfim. Experimentem, em um concurso ou prova, dizer o oposto do que os professores doutores da banca dizem. Serão fulminados pela heresia. Isso não quer dizer que vocês estejam errados, cientificamente falando; o erro foi não seguir a cartilha. É por isso que, no geral, sou partidário do princípio de que "prova não prova nada", e concordo quando Clóvis Beviláqua diz (aqui se referindo especificamente ao ensino do Direito) que "o que se deve apurar na educação jurídica não é a expansão cerebral, e sim a fortaleza de espírito, a resistência do caráter", e também com Lênio Streck (aqui), igualmente sobre o ensino jurídico, ao dizer que em seu "mundo ideal"

(...) não mais será necessário decorar a Constituição e os Códigos para fazer concurso; as perguntas, no novo regime, buscarão detectar efetivamente o que os candidatos sabem; também o Exame de Ordem não trará mais perguntas que somente o argüidor saiba ou baseadas no único livro que o argüidor leu ou conhece.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Vampiros (e adaptações capengas)


Um aspecto atraente, em "Drácula" de Bram Stoker, é o modo como o romance é estruturado: na forma de cartas e registros de diários escritos pelos personagens (o chamado "romance epistolar"). Isso aumenta exponencialmente a carga de suspense, pois não há um narrador onisciente explicando tudo; ao contrário, sabemos da trama apenas aquilo que os próprios personagens sabem. Daí descobrimos com Jonathan Harker a sensação de estranhamento e angústia que é ser prisioneiro no castelo do Conde. O narrador onisciente geralmente é um desmancha-prazeres. Ao invés de nos manter na ignorância, como o protagonista da história, o narrador vai dizer que atrás da porta há isso ou aquilo, e o protagonista não precisa atravessar a porta para descobrir. Bram Stoker foge disso, e acompanhamos passo-a-passo o terror se desenrolar.

Estava ou morto ou dormindo, não posso dizer, pois seus olhos estavam abertos e parados, mas sem o aspecto vítreo que lhes dá a morte, e as faces tinham o calor da vida, apesar da palidez; os lábios estavam vermelhos como sempre. Mas não havia sinal de movimento, de respiração, nem o coração batia. Debrucei-me sobre ele e tentei em vão procurar um sinal de vida. Resolvi ver se as chaves estavam com ele, mas, ao revistá-lo, encontrei seus olhos que refletiam tanto ódio, embora inconsciente de minha presença, que fugi e, saltando a janela do quarto do Conde arrastei-me, de novo, pela parede do castelo.

domingo, 25 de março de 2012

Todas as formas de luta


É preferível, em uma batalha, estar com um M16 a estar com um .38 obsoleto. Mas se não há um M16 às mãos, devemos nos virar com o que temos e, se necessário, até com paus e pedras. Como tudo na vida, as escolhas dependem necessariamente do leque de opções e, quando a situação aperta, devemos utilizar o que for possível. A metáfora bélica é para lembrar que, seja na guerra real ou na figurada, nós que reivindicamos o marxismo como instrumento de transformação da sociedade devemos, também, saber utilizar as armas que temos, não descartando nenhuma a priori- conquanto, naturalmente, que seu uso não consista em traição de princípios nem em obstáculo indireto à estratégia colocada.

Gosto de usar como exemplo, e não por acaso, por ser meu campo de estudo, o Direito. Os marxistas sabemos que a emancipação humana e o fim da opressão do homem pelo homem (e todas as mazelas decorrentes dessa opressão, homofobia e as diversas discriminações, abismo entre trabalho manual e intelectual etc.) só podem se dar em outros moldes, em outro formato, vale dizer, em outro sistema de produção. Não se pode chegar a esses objetivos dentro do capitalismo, pois tal panorama é intrínseco ao sistema. Faz parte dele, logo é preciso mudá-lo. Mas ocorre o seguinte: mesmo dentro do sistema, é possível, pouco e limitadamente que seja (afinal, tratam-se de características imanentes), enfrentar tais mazelas, através de ferramentas que o próprio sistema coloca à disposição.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Pontos sobre o reformismo


1. Qualquer postura marxista pressupõe necessariamente o engajamento na derrocada revolucionária do capitalismo; não se trata de aperfeiçoá-lo, humanizá-lo ou, menos ainda, de desenvolvê-lo. O papel dos marxistas é pela superação do sistema, erguendo, sobre suas bases, a nova sociedade.

2. Por isso, é incompatível com o marxismo qualquer visão nacional-desenvolvimentista, que pressupõe uma aliança com setores burgueses "progressistas" da sociedade. Tal filosofia, sinônimo do conciliacionismo de classe mais crasso, se já era equivocada nos anos 40-60, hoje em dia adota caráter absurdo, haja vista a impossibilidade de se falar, hodiernamente, em uma burguesia "nacional", diante da globalização do capital e da inserção das economias nacionais no cenário internacional (o que não impede que haja, pontualmente, contradições entre as diversas burguesias). Ademais, o pensamento nacional-desenvolvimentista, pelos marxistas, significaria a adoção da visão etapista, enxergando a evolução da sociedade (rumo ao socialismo) como um processus mecânico e fatalista:

A formação de uma economia de mercado nas bases previstas pelo nacional-desenvolvimentismo era compreendida pela esquerda como um elemento de maturação das condições necessárias à construção de uma experiência socialista no Brasil. (Apud Bruno J. C. Oliveira, "Os fundamentos de uma derrota: uma análise sobre o nacional-desenvolvimentismo brasileiro", aqui).

quinta-feira, 1 de março de 2012

No Céu dos bons ateus


Fazer qualquer coisa sob pressão, sob obrigação, tira um pouco, senão a totalidade, do mérito que eventualmente teríamos por aquela ação. Afinal não foi espontâneo: se agi, foi porque era obrigado a isso- um contrato, uma arma na cabeça, sentimento de culpa etc. Não há o desprendimento, não há conduta desinteressada. O livre-arbítrio acaba tolhido, amesquinhado. Isso não se aplica ao conceito hindu do dharma, tal como o compreendo em minha ótica. Pois no dharma, atuamos por achar que dada ação é o correto; é a convicção pessoal, íntima, que nos leva a escolher essa ou aquela conduta. Não há uma imposição exterior, alheia; ao contrário, é à nossa própria voz interna que ouvimos. Conjeturei sobre isso na postagem sobre Cannon.

A religião -qualquer uma delas- faz justamente isso: retira qualquer mérito das ações. Porque exige do crente que faça assim ou assado, caso contrário irá para o inferno. É a analogia da arma na cabeça. "Deus está vendo!", ouvimos quando crianças, para que nos comportemos. Ainda adultos repetem a ladainha, e ei-los homens tementes a Deus. O fato de um Deus precisar ser "temido" para ser obedecido mostra muita coisa. Não por acaso mais de uma pessoa chama a religião de camisa-de-força.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Hemingway, pescadores- e heroísmo


Eu acho que o "heroi ideal" -nas artes em geral, do cinema aos quadrinhos- é aquele com o qual nos identificamos. Na arte queremos ver a sublimação da vida, e é fundamental para isso que haja um mínimo que seja de identidade com a vida aqui fora; sem verossimilhança, não se cumpre esse papel. Não é abrir mão da fantasia (até pelo contrário): mas sim que possamos nos identificar com a fantasia. A vida real é feia, muito feia, sofre-se e chora-se, comemos o pão que o diabo amassou; se o heroi na tela (ou nas páginas do livro, dos comics etc.) não passam por isso, não é possível que nos identifiquemos com ele. O Homem-Aranha é popular por ser um heroi que tem dificuldades para pagar contas (além do nerd inseguro que Peter Parker é, no filme de Sam Remi), assim como, em outra dimensão do mito heroico, Arjuna é humano por ter dúvidas- o Bhagavad Gita é a história de Krishna convencendo-o a ser engajar em combate. E Heitor de Troia na Ilíada: não é o implacável e invencível Aquiles o personagem principal, apesar de mais famoso. E sim Heitor, que mesmo pressentindo a morte, tomado de preocupação pela mulher e filho, combate na linha de frente; porque a defesa da pátria é o certo. Heitor que mesmo valoroso também sente medo e foge mas que, no momento fatal, encara a morte de peito aberto; isso é ser humano, ser gente como a gente. O filme Troia, com Eric Bana como Heitor, mostrou um pouco disso, mas obviamente muito aquém da Ilíada.

Dentro dessa ótica, um dos personagens mais humanos que conheço da literatura é o pescador de "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway. A velhice por si só é uma coisa comovente, ainda mais se tratando de um idoso pescador curtido pelo sol; e sob uma maré de azar, ainda por cima. Dias e dias sem uma pesca exitosa, convertendo-se aos poucos na chacota da aldeia. Mas o velho não se entrega: cada dia de tentativa pode ser o dia da vitória.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O Império contra-ataca


Observemos os últimos acontecimentos. Não precisamos voltar muito no tempo nem ir muito longe: agora mesmo, aqui do lado, a violenta reintegração de posse do terreno do Pinheirinho e a investida contra os viciados na Cracolândia, ambos episódios no estado de São Paulo. Num caso, famílias que ocupavam o dito terreno há anos, no outro, verdadeiros farrapos humanos, destruídos física e moralmente. Ambos problemas sociais (por trás a economia e as relações materiais, que como ensinou Marx são a base de tudo), ambos tratados à base da porrada. Problemas "resolvidos" via batalhão de choque, gás lacrimogêneo, cassetete, cavalaria, dedo na cara e prisões.

Há surpresa nisso? Não, nem é novo. O autoritarismo é da essência do Estado (falamos disso aqui). A polícia é o braço armado do Estado, e tendo o Estado um caráter de classe, a polícia -seu braço armado- serve para atender a esses interesses de classe. Já que não poderia ser diferente, não deveríamos nos chocar (mas acho que não podemos nunca perder a capacidade de nos chocar) com a violência policial do PSDB de Alckmin; o que realmente choca, o que causa espanto, é ver que essa violência policial tem sido aplaudida por muitos setores da sociedade.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O egoísmo que derruba prédios


Desço pela Av. Rio Branco, no centro do Rio, após a sessão semanal do Instituto dos Advogados Brasileiros. Vejo de longe, na altura da Almirante Barroso, a densa nuvem, como se tivessem soltado muitos, muitos fogos. É asfixiante: para me aproximar (eu e os demais curiosos que começavam a se aglomerar) precisei levar o lenço ao rosto. Uma patrulha já começava a fechar o trânsito, e perguntei ao policial o que se passava. A resposta, algo incrédula, foi "um prédio caiu". Muita incredulidade por parte de todos, mesmo diante da montanha de escombros diante dos olhos. Muita gente já se aproximava, eu inclusive, ávidos para entender o que se passara. Como um prédio tão sólido, que há pouco estava lá firme e forte, em uma fração de segundos se reduzira a uma pilha disforme de concreto? Subitamente alguém gritou e, como é natural em situações dessas, bastou que alguém corresse para que toda a multidão (eu inclusive, também) corresse para longe do local- mas foi alarme falso, não houve mais nenhum desmoronamento. Daí os carros de bombeiros começaram a chegar e a área foi isolada, cortando o barato dos curiosos. Resolvi ir embora: era mais fácil, naquele momento, se informar através da imprensa que já começava a apurar os fatos (uma cobertura sobre os, não um, mas três prédios que desabaram naquela fatídica noite de 25/ 01, aqui).

A morte, quando vem de modo abrupto, repentino, traz sempre consigo o choque. Tragédias imprevisíveis (se era previsível e nada foi feito para que seja evitada, não era uma tragédia e sim um crime) mostram como somos impotentes. De uma hora para outra, sem o menor aviso: ei-nos misturados ao aço retorcido, sob pilhas de entulho, amassados nos escombros. Não se trata de ser mórbido, mas penso que esporadicamente é bom refletirmos sobre essas coisas: para colocarmos nossa arrogância no lugar. Uma fração de segundos e nossos planos são esmagados por toneladas de concreto.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A divindade no volume máximo


Na cama no quarto escuro: para combater o tédio recorro ao aparelho de MP4. Fones devidamente encaixados, volume no tom razoável, vasculho as pastas virtuais atrás de um som adequado para o momento, e então me decido- entre o hardcore californiano do Bad Religion e o soft rock setentista do America, o chamado da Mãe África reverbera na escuridão do quarto: seleciono a pasta de pontos de Umbanda.

Uma coisa a considerar: eu disse Mãe África, mas não considero a Umbanda estritamente africana. Ela também é africana, mas exorbitou os limites geográficos; em verdade, é a única religião brasileira (com inclinação à universalidade), conforme agregou ao seu panteão ritualístico não só os negros, como a herança indígena e também a referência europeia (na trilogia ocultismo - catolicismo - kardecismo). É uma religião de oprimidos, e já no berço; desde o fato concreto dos escravos precisarem camuflar suas crenças recorrendo à terminologia católica até o fato, metafísico -portanto questão de crença- da manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas, na Federação Espírita de Niteroi em 1908, no Rio de Janeiro, contra a discriminação que as Entidades ditas pouco evoluídas sofriam nas mesas kardecistas, a Umbanda sempre falou aos estratos marginalizados da sociedade. É o materialismo histórico puro: o índio (na figura do Caboclo), o negro (como Preto-velho), o malandro marginalizado (como Exu), todas as figuras historicamente relegadas a segundo plano na vida social brasileira encontram, na Umbanda, espaço para respeito e deferência.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

De socialismos monárquicos


Morre Kim Jong-Il da Coreia do Norte. Como é de praxe, penso que ao analisar a experiência norte-coreana devemos evitar saídas simplistas ou reducionistas: o método deve ser o dialético e não o binário. Vejo muitos desprezando as informações que nos chegam do país, porque partiriam dos meios de comunicação burgueses: organizações Globo, Veja etc. Daí vão se refugiar, ora ora, nos meios de comunicação oficiais... norte-coreanos. Em ambos os casos a imparcialidade -se é que há órgão de informação imparcial desde que a imprensa existe- fica comprometida, e as coisas acabam por se reduzir a uma escolha, uma opção, acredito "nisto" mas não "naquilo".

A posição dos marxistas revolucionários é apenas uma: ao lado da classe trabalhadora. Os comunistas não têm outros interesses que não sejam os interesses do proletariado ("Manifesto Comunista"), e o proletariado é uma classe, não um partido ou um indivíduo. A luta é pela emancipação da classe trabalhadora -que redunda na emancipação da espécie humana como um todo- e se essa tarefa é colocada nas mãos de um líder ou partido, não há emancipação em absoluto: continuamos rebanhos à espera de messias. Já na Coreia do Norte o culto à personalidade exorbita, por incrível que pareça, o stalinismo soviético (que produziu editoriais do Pravda como "se você estiver cansado, pense em Stálin e encontrará novas forças..."): basta que se diga que o marco inicial do calendário do país é o nascimento de Kim Il-Sung, fundador do socialismo norte-coreano (e uma experiência socialista ter um "fundador" já é sintoma claro de deformação) e que de Kim Il-Sung o poder supremo passou a seu filho, o recém-falecido Kim Jong-Il, e deste para seu rebento, Kim Jong-Un.

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