quinta-feira, 1 de março de 2012

No Céu dos bons ateus


Fazer qualquer coisa sob pressão, sob obrigação, tira um pouco, senão a totalidade, do mérito que eventualmente teríamos por aquela ação. Afinal não foi espontâneo: se agi, foi porque era obrigado a isso- um contrato, uma arma na cabeça, sentimento de culpa etc. Não há o desprendimento, não há conduta desinteressada. O livre-arbítrio acaba tolhido, amesquinhado. Isso não se aplica ao conceito hindu do dharma, tal como o compreendo em minha ótica. Pois no dharma, atuamos por achar que dada ação é o correto; é a convicção pessoal, íntima, que nos leva a escolher essa ou aquela conduta. Não há uma imposição exterior, alheia; ao contrário, é à nossa própria voz interna que ouvimos. Conjeturei sobre isso na postagem sobre Cannon.

A religião -qualquer uma delas- faz justamente isso: retira qualquer mérito das ações. Porque exige do crente que faça assim ou assado, caso contrário irá para o inferno. É a analogia da arma na cabeça. "Deus está vendo!", ouvimos quando crianças, para que nos comportemos. Ainda adultos repetem a ladainha, e ei-los homens tementes a Deus. O fato de um Deus precisar ser "temido" para ser obedecido mostra muita coisa. Não por acaso mais de uma pessoa chama a religião de camisa-de-força.

Peguemos o Corão, por exemplo. O "Pai Nosso" compassivo do Sermão da Montanha aparece aqui como um ser terrível, cuspindo bolas de fogo. As ameaças abundam pelos versículos do livro, lagos de fogo eterno para os "infieis". E quem é o infiel? Aquele que não concorda, aquele que não se submete. Para eles, a eternidade no enxofre escaldante. Apenas os submissos (na etimologia, "muçulmano" é o submisso a Deus) herdarão a terra e o Profeta, em especial, tem seus privilégios, como se vê nas suratas (capítulos) 33: 50, 53, e 49: 2,3. E privilégios para os profetas não são prerrogativa do Islã, basta que se veja as distinções do Papa (o "representante de Deus na Terra") e a teocracia que é o regime dos lamas no Tibete (hoje sob a China).

Deixemos duas coisas claras.

Primeiro, não é minha intenção injuriar os religiosos. Mas não que fosse injusto: se me tomam por um infiel merecedor da eternidade no lago de fogo, seria razoável que, de minha parte, os considerasse alienados bitolados. Troca justa. Segundo, sou crítico da religião, mas não da religiosidade; já fiz essa diferenciação em outros posts (aqui, por exemplo). Enquanto uma é terreno do dogma e dos "profetas" de todos os tipos, a outra é o campo personalíssimo e indevassável onde o indíviduo reflete e medita nas velhas perguntas, "de onde viemos etc.", buscando um objetivo, um sentido, para a existência. Da religiosidade pode-se chegar a conclusões importantes. Pode ser ferramenta (conjugada com outras) de emancipação. Da religião, porém, o que se consegue é a visão binária, o reducionismo, o sectarismo. Uma é o ópio do povo, a outra pode (pode) ser fermento, na frase de Garaudy que tanto me agrada.

Voltemos à questão do "agir". Somos bondosos e exemplares porque tememos a Deus e esperamos a recompensa no pós-túmulo. Mas e se...não acreditarmos em Deus e muito menos no pós-túmulo? Vou contar um segredo: é possível ser ateu sem deixar de ser "bondoso" ou "exemplar". Por que a dedicação ao próximo se não há medo do "castigo" nem a esperança da "recompensa"? Porque o que nos move, agora, é outra coisa: o senso humanista, que transcende qualquer medo divino. É essa motivação -humanista, desinteressada, verdadeiramente engajada- que faz com que tantas pessoas, sem um pingo de esperança no Paraíso, dediquem a vida inteira na construção de uma sociedade mais fraterna e justa. Pessoas como Leon Trotsky, que em seu testamento (aqui) diz:

(...) sejam quais forem as condições de minha morte, morrerei com uma fé inquebrantável no futuro comunista. Esta fé no homem e em seu futuro dá-me, mesmo agora, uma tal força de resistência como religião alguma poderia me fornecer.

Percebem? A fé é no homem e em seu futuro, e não nos desígnios divinos.

Se houver algum paraíso na Terra algum dia, será pelas mãos humanas. E de mais ninguém. Da mesma forma, o inferno somos nós que construímos.

No mesmo sentido, outro revolucionário, Adolf Joffé (em sua última carta ao mesmo Trotsky):

(...) durante toda a minha vida consciente, permaneci fiel a esta filosofia, isto é, vivi segundo este sentido da vida: o trabalho e a luta pelo bem da Humanidade.

É preferível um ateu irredutível, que dedique a vida inteira "ao trabalho e luta pelo bem da Humanidade" a um milhão de piedosos crentes, com suas romarias, arengas e promessas de salvação inúteis. Aliás, numa perspectiva teológica, parece-me que deveria haver maior recompensa para o "bom ateu" do que para o "mau crente". Também aqui a prática é o critério da verdade, faça o que eu digo, não faça o que faço etc.

Há um poema atribuído a Jalal ad-Din Rumi, o sufi persa do séc. XIII, que diz:

Que fazer se não me reconheço?
Não sou cristão, muçulmano ou judeu.

Quando a religião se torna opressora, o indivíduo a abandona e adentra na religiosidade. Mas também essa, por não prescindir do metafisicismo pode se tornar ela própria um entrave. Daí, penso eu, também a religiosidade acaba, cedo ou tarde, sendo descartada. Irão me objetar: qual o problema com a metafísica? Que seja. O que importa no fundo -e isso vale para todos aqueles que agem com medo do Capeta- é o trabalho e a luta pelo bem da Humanidade.

Se o medo do Capeta ajuda vocês nisso, que seja. Amém.

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