quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Hemingway, pescadores- e heroísmo


Eu acho que o "heroi ideal" -nas artes em geral, do cinema aos quadrinhos- é aquele com o qual nos identificamos. Na arte queremos ver a sublimação da vida, e é fundamental para isso que haja um mínimo que seja de identidade com a vida aqui fora; sem verossimilhança, não se cumpre esse papel. Não é abrir mão da fantasia (até pelo contrário): mas sim que possamos nos identificar com a fantasia. A vida real é feia, muito feia, sofre-se e chora-se, comemos o pão que o diabo amassou; se o heroi na tela (ou nas páginas do livro, dos comics etc.) não passam por isso, não é possível que nos identifiquemos com ele. O Homem-Aranha é popular por ser um heroi que tem dificuldades para pagar contas (além do nerd inseguro que Peter Parker é, no filme de Sam Remi), assim como, em outra dimensão do mito heroico, Arjuna é humano por ter dúvidas- o Bhagavad Gita é a história de Krishna convencendo-o a ser engajar em combate. E Heitor de Troia na Ilíada: não é o implacável e invencível Aquiles o personagem principal, apesar de mais famoso. E sim Heitor, que mesmo pressentindo a morte, tomado de preocupação pela mulher e filho, combate na linha de frente; porque a defesa da pátria é o certo. Heitor que mesmo valoroso também sente medo e foge mas que, no momento fatal, encara a morte de peito aberto; isso é ser humano, ser gente como a gente. O filme Troia, com Eric Bana como Heitor, mostrou um pouco disso, mas obviamente muito aquém da Ilíada.

Dentro dessa ótica, um dos personagens mais humanos que conheço da literatura é o pescador de "O Velho e o Mar", de Ernest Hemingway. A velhice por si só é uma coisa comovente, ainda mais se tratando de um idoso pescador curtido pelo sol; e sob uma maré de azar, ainda por cima. Dias e dias sem uma pesca exitosa, convertendo-se aos poucos na chacota da aldeia. Mas o velho não se entrega: cada dia de tentativa pode ser o dia da vitória.

Eu acredito no potencial terapêutico da arte, chamemos assim, o poder que a arte tem -novamente: do cinema aos quadrinhos- de nos melhorar. Não me refiro a autoajuda; mas sim ao aperfeiçoamento moral, chamemos assim de novo, que podemos extrair do consumo artístico (justamente pelo seu papel na emancipação humana, penso que o acesso à cultura deve ser amplo e irrestrito, doa a quem doer). Nesse sentido, mais de uma pessoa -dentre as quais me incluo- viu em "O Velho e o Mar" de Hemingway algo como um alento em momentos de dificuldade na vida.

Porque a lição do velho pescador é esta: perseverança. Lançar-se ao mar atrás da grande pesca, simplesmente isso. Vai que é o grande dia. Se você não se lançar ao mar, jamais irá saber. Por que o medo do mar? Os pescadores não fomos feitos para a terra firme.

Foi o grande dia do velho: um pescado de seis metros. Mas não conseguiu gozar o êxito, pois no trajeto rumo à terra o peixe foi devorado por tubarões, por mais que se tentasse repeli-los. Chegou apenas uma carcaça, a recompensa do esforço. Mas, e é tal a lição: independentemente do resultado concreto, lutou-se, lançou-se ao mar. Ao dizer que fora vencido, o velho pescador ouve de seu jovem amigo, "não, eles não venceram", eles, os tubarões. Porque a vitória de um homem não se resume a um peixe, mesmo que de seis metros de comprimento. O que caracteriza a vitória é outra coisa.

O Hemingway dessas lições de perseverança estourou os próprio miolos em 1961. Não deve ser recriminado. Às vezes a vida é feia demais (como falado no início do post), e nem sempre a coragem simples do velho pescador dá conta.

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