quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Inventário 2011


O tempo é uma convenção humana. Os critérios utilizados para demarcar a passagem de tempo têm origem na natureza -movimentos de rotação, translação, fases da lua etc.- mas foram os homens que fizeram disso marcos para suas vidas. Por exemplo, a cada 365 dias ei-nos comemorando aniversários (e é poético pensar que cada aniversário é uma volta dada em torno do sol) ou fazendo resoluções pra o novo ano que se inicia. Agora, por que precisamos esperar o decurso de 365 dias para, só então, implementarmos mudanças em nossas vidas é realmente um mistério. "Ano que vem farei isso ou serei isso", tal é a fórmula dos acomodados de todo tipo. A palavra é feia mas é esta mesma: procrastinação. Há essa convenção humana que diz que virar a folhinha do calendário, esse simples ato, muda nossas vidas. Mas vem a decepção quando o 01 de janeiro se mostra exatamente igual ao 31 de dezembro.

Mas sigamos a convenção e façamos o balanço do ano que termina. Há uma importância nisso: se a História se repete como farsa, e, mais que isso, se os mortos governam os vivos -é o que nos ensina Marx no "18 Brumário de Luís Bonaparte"- é fundamental, ou no mínimo útil, conhecer o passado. Para que, com vista nele, possamos dar ao futuro outro rumo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Abaixo a poesia cor-de-rosa


Maiakovsky, em "A plenos pulmões", faz a oposição entre os versos "de donzela", digamos assim, e a poesia engajada, politizada, que escrevia. Diz que sacrificou sua verve lírica em prol da revolução comunista -e conclui o poema apresentando ao Comitê Central do futuro não o registro partidário, mas seus versos militantes- assim como, diante do horror nazista, Brecht negligenciou poemas sobre macieiras em flor em prol da denúncia política (como em "Mau tempo para poesia", aqui).

É um questão de compromisso moral. Diante das demandas concretas do cotidiano -guerras e revoluções, lutas e luto, entusiasmo e angústia- seria desrespeitoso, ou ao menos mostra de alienação, voltar-se para outros assuntos que não aqueles colocados na ordem do dia. Como falar de amor se as bombas caem, de namorados se o nazifascismo bate à porta? E eis os poetas assassinando a Musa pelas contingências da vida.

Não se pode exagerar, todavia. A arte tem justamente o poder de aliviar o cotidiado. É um bálsamo. O homem não pode viver sem arte, os "músicos mil vezes milenares" que, com junco, fizeram flautas, como diz Roger Garaudy, mostram que a manifestação artística é inerente ao ser humano. Um mundo sem arte seria um túmulo (já um mundo sem breganejo seria um lugar melhor, mas isso é outra história). Penso que no meio da dor pode caber um pouco de lirismo, e entre tiroteios se pode ter tempo para o sentimento. "Filmes de guerra, canções de amor", como no disco dos Engenheiros do Hawaii. É preciso achar o equilíbrio.

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