terça-feira, 19 de junho de 2012

Se casamento fosse bom não precisava de testemunha


Tarde da noite, procuro na Wikipedia informações sobre Otto Rank, o psicanalista discípulo e amigo -e depois rival- de Freud. É a descrição que Anaïs Nin, em seus diários, faz dele que desperta minha curiosidade, o modo como narra seu amor pelo mesmo: idealizado e não concreto, o Rank intelectual mas não o homem de carne e osso. Ama o espírito: fisicamente é um homenzinho sem atrativos. E, justamente, a vontade de Rank de tornar o amor real funciona como estopim para a ruptura entre os dois. Rank, como dito, também rompera com Freud. O velho mestre não suportara a heresia do discípulo, com sua tese sobre o estado pré-Edipiano (e a dor do nascimento) como o centro das neuroses enquanto que, para Freud, é o complexo de Édipo o ponto nodal de sua teoria. Eis armada a distensão. O que posso falar, sobre isso -do alto da ignorância de um leigo- é que, complexa e contraditória como é, a psiquê humana não pode prescindir de teses complexas e contraditórias como ela própria. Pode-se chegar perto, mas o ser humano será sempre um eterno desconhecido. E os psicanalistas estarão sempre brigando entre si.

Mas, avancemos da psicanálise para os meandros mais sombrios da psiquiatria forense. A mídia sensacionalista fez a festa com o mórbido caso do executivo executado (sem trocadilho) pela própria esposa (notícia, aqui). Os detalhes macabros abundaram: esquartejamento e ocultação de cadáver, tudo isso permeado pela frieza psicopática da assassina. Engrossando o caldo, era ex-prostituta e o motivo seria ciúmes, dado que o executivo teria sido flagrado em um caso amoroso. O caráter psicopático -repito, sou leigo- fica evidenciado pelo modus operandi. Podemos entender (o que não é a mesma coisa que justificar) um homicídio, em um momento impensado; o sangue esquenta, a arma está à mão- e eis o ato consumado. Mas, enquanto alguém normal se desesperaria pelo ato inconsequente e chamaria a polícia, o psicopata (no caso, a esposa assassina) esquarteja a vítima, condiciona as partes em malas e as despacha pela estrada. A vítima, o pai da própria filha. E, claro, ainda reservando tempo para limpar o apartamento e ocultar tudo da babá, que chegara para trabalhar. Quem age assim não é alguém normal, mentalmente falando. Outro caso recente de crime passional foi a morte da irmã de Ângela Bismarchi (notícia aqui) em uma discussão envolvendo o ex-marido, que invadira sua casa onde se encontrava com o atual namorado.

Como se vê, no cerne dos dois crimes estão relações familiares e o casamento. Desde que existe, essa instituição, o casamento, faz dos cônjuges proprietários um do outro. E não poderia ser diferente: o casamento nasceu com a propriedade privada (e consequentemente com a luta de classes) conforme vemos, por exemplo, n'"A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado", de Engels. Também nasce aí a opressão de gênero, a mulher como mais um bem, reduzida à função de gerar rebentos para o patricarca. A Igreja (a cultura judaico-cristã como um todo) reforça isso, com seus "até que as morte os separe" e "o que Deus uniu, o homem não separe". E eis homens e mulheres acorrentando-se mutuamente, em nome dos "sagrados laços do matrimônio".

Minha crítica à instituição do casamento (sejamos mais ousados: à monogamia enquanto imposição social) não é nova; já a havia exposto no antigo blog, aqui. Penso exatamente da mesma forma, hoje. A mediocriadade parece ser invencível. O tédio corta asas, e cá estamos todos respeitosos pais de família- mas por baixo da capa de hipocrisia sabemos como as coisas são. Gostaria de frisar uma coisa, porém (se é que não parece óbvia): a minha repulsa é contra a convenção social que força a situação. Já a monogamia (por extensão, o casamento), quando voluntária, quando consciente, é algo não só respeitável como, também, admirável. Oxalá as relações humanas pudessem ser todas assim.

O sistema capitalista, como faz com tudo, transforma também as relações humanas em mercadorias. Aqui, as mazelas das sociedades de classes (tão antigas como a Humanidade, como diz a famosa introdução do "Manifesto Comunista") adquirem proporções monstruosas. Heranças, espólios e status social dão o rumo. Em meio a isso, maridos que se acham donos (a expressão é perfeita) da esposa, e vice-versa. E os filhos no meio do fogo cruzado, a repetir no amanhã o mesmo padrão.

3 comentários:

Willian Alves de Almeida disse...

Ótimo, vou compartilhar posteriormente no Facebook!

É exatamente o que penso sobre o casamento monogâmico.

Wesley Pereira disse...

Sobre a propriedade do outro numa relação, acredito que mais ações desse tipo seriam necessárias para conscientizar as pessoas: http://youtu.be/nnlU0m1PlFY

abraço Tejo.
Wesley.

J.L.Tejo disse...

É isso, amigos. E viva Maiakovsky, para quem o amor não deveria ser "escravo de casamentos e contas".

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