segunda-feira, 9 de julho de 2012

Aliados e seus equívocos


A companheira Lena, pelo Facebook, comenta, em tom de brincadeira, que a LIT (organização internacional à qual o PSTU é vinculado) é agente da CIA, e cita o entusiasmo da corrente com a "revolução democrática" que estaria se dando na Síria. Esse comentário não é novo -tenho ouvido-o reiteradamente de diversos companheiros, como gracejo ou mesmo dito seriamente- e, por considerá-lo injusto, pus-me a pensar sobre seu significado e as implicações envolvidas. As perguntas essencialmente colocadas são: o que é exigível de um aliado, que tipos de erro são toleráveis neste e, mesmo, se são necessários aliados para o processo revolucionário.

O processo revolucionário, por ser justamente um processo, uma sucessão não-linear de acontecimentos (e que jamais encontrará um formato "pronto"; também nesse sentido pode-se falar em revolução permanente) requer uma pluralidade de agentes. É impossível (ou ao menos improvável) que um único agrupamento, forte e estruturado que seja, encontre condições objetivas de realizar sozinho a superação de um sistema de produção. Mesmo porque a tarefa não se exaure com a tomada de poder, ao contrário. As revoluções exitosas na História são pródigas em exemplos de como as forças revolucionárias confluem- como a Russa, bolcheviques, socialistas revolucionários e mencheviques de esquerda atuando em conjunto.

Inclusive não é bom que o processo revolucionário seja monopolizado. O marxismo, sendo rico e dialético, não pode engendrar um processo que seja sua negação. A pluralidade de agentes -desde que em torno do mesmo conteúdo estratégico e de um programa mínimo- não só estimula o processo como amplia suas bases. O PCB está ciente disso, como se vê na "Carta aos verdadeiros comunistas", de Ivan Pinheiro, secretário-geral do Partido, nos marcos do XIV Congresso (Rio de Janeiro, 2009):

O PCB não pode se julgar o dono da verdade e muito menos o Partido vocacionado para dirigir o processo revolucionário. Há muita vida inteligente e revolucionária fora das nossas fronteiras; há uma rica e complexa teia de organizações políticas e sociais com tendência ou caráter revolucionário que precisa ser articulada numa frente contra o capital. A revolução brasileira será obra coletiva de um amplo conjunto de forças antagônicas à ordem burguesa e, sobretudo, da ação das massas proletárias e de seus aliados.

O grifo é meu: revolução é obra coletiva. Caso contrário, sem respeito à alteridade, ao outro, pode-se falar com mais precisão em "golpe".

Sendo o "outro" fundamental para o processo revolucionário, é preciso conjeturar a natureza desse "outro". Como dito acima, deve haver o mesmo conteúdo estratégico -nenhum outro que não a revolução socialista- e um programa mínimo. Há que exigir mais que isso? Ora, se há total identidade não se pode falar em "outro" e sim em "si mesmo". Duas organizações que não possuam divergências -mínimas que sejam- fariam melhor se se fundissem; ou, havendo divergências (desde que não insuperáveis), também se fundissem mantendo-se o direito de tendências (nesse caso, com muito cuidado, para não se cair na situação que comentei aqui). Mas nem sempre as coisas acontecem assim. Se dentro do mesmo partido há pensamentos os mais diversos, quiçá antagônicos, que dizer de organizações diferentes, com origens e tradições diversas?

Aliás, é preciso dizer o seguinte: é importante que haja tal diversidade. Não é preciso lembrar que o pensamento monolítico é contrarrevolucionário: totalmente oposto ao marxismo que, como dito acima, é rico e dialético, não um edifício concluído mas um "canteiro de obras, sempre inacabado", como diz Löwy ("Por um marxismo crítico", aqui). O "outro" é necessário, portanto. Para mostrar onde estamos errados ou, pelo contrário, indicar os nossos acertos.

Especificamente o PSTU. Antes de tudo, há que observar o seguinte: depois do PSOL, é o maior partido -em termos estruturais e numéricos- da esquerda brasileira (por esquerda, obviamente, não considero PCdoB, PT e quejandos). E com um discurso que não esconde a palavra "socialismo" nem a necessidade de superar o capitalismo, bem como denunciando a burguesia e conclamando os trabalhadores. É verdade que ser um dos maiores partidos da esquerda brasileira não é um feito fantástico, em razão da debilidade dessa mesma esquerda; mas é algo a ser respeitado. Afinal, é muito mais fácil abrir mão do discurso e se deixar levar pela corrente. O discurso, por outro lado, por si só não significa muito. Pode-se ter um discurso radical e uma prática oportunista, o que caracteriza o centrismo, pecha que, aliás, tem sido aplicada ao próprio PSTU (o centrismo não consiste apenas no descompasso entre discurso e prática; para entendê-lo melhor, ler os "Two Articles On Centrism" de Trotsky, aqui). Podemos apontar contra o PSTU, ainda, sua análise binária da situação internacional. Os episódios dos levantes árabes desde finais de 2010 são um exemplo. Enquanto setores lamentavam a queda do "heroico" Kadafi e viam em tudo uma orquestração da CIA -isto é, uma análise igualmente binária- o PSTU/ LIT caía no extremo oposto, o de enxergar uma verdadeira revolução em curso. Mas não havia revolução alguma em andamento: e sim um justo levante das classes trabalhadores daqueles países que, em dado momento, foi tragado pela intervenção armada imperialista. Na Síria também observamos a mesma simplificação da realidade:

Nesta guerra civil [e me parece que já há mesmo uma guerra civil aberta na Síria] existem dois campos militares em luta. De um lado, no campo militar, está à ditadura sanguinária e pró-imperialista de Bashar Al Assad, que detêm o poder há 12 anos sucedendo ao seu pai Hafez, no marco de um regime de partido único que já dura mais de 40 anos. Do outro lado, no outro campo militar, estão as massas sírias, que se mobilizam e lutam com armas em mãos para derrubar a Assad, conquistar liberdades democráticas e melhorar seu nível de vida, arruinado pelos efeitos da crise econômica e as políticas de fome que aplica Assad para se enriquecer e entregar os recursos do país ao imperialismo.

"Diante da guerra civil é urgente derrubar o regime assassino de Assad", aqui. Os grifos são meus: "dois lados", como se nesses campos em confronto não houvesse contradições internas, como se não se pudesse falar em um "terceiro lado", principalmente levando-se em conta a disputa regional em jogo- as pretensões do sionismo israelense (e seus aliados ianques), interessado na queda de Assad. Mesmo quando alerta para os riscos de intervenção do imperialismo -aqui, por exemplo- o PSTU/LIT parece incorrer em inconsistências claras. Não é "possível" que o imperialismo intervenha, caso a revolução (usemos o termo) na Síria avance; caso se trate mesmo de uma revolução, é evidente que o imperialismo intervirá; e, mesmo que já esteja por trás do processo, também não deixará de fazê-lo para impedir que as coisas saiam de seu controle. Também na questão cubana o PSTU/LIT incorre num, data venia, erro crasso de diagnóstico, e falamos disso aqui.

Hesitações e erros que remontam a Moreno, inicialmente contra o pablismo (apoiando o Comitê Internacional) e depois capitulando ao mesmo (inclusive com "entrismo" -na variante pablista- dentro do peronismo). Nem é preciso lembrar, por fim, a concepção de revoluções "tipo fevereiro" e "tipo outubro", que pode (deixo em aberto) desembocar numa visão etapista, bem como a análise errônea da queda dos Estados Operários degenerados, fato visto como uma vitória, esquecendo a lição cristalina de Trotsky em "Uma vez mais: a URSS e sua defesa":

Stálin derrubado pelos trabalhadores: é um grande passo para o socialismo. Stálin eliminado pelos imperialistas: é a contrarrevolução que triunfa.

Diante de tantos equívocos e interpretações errôneas da realidade, há que perguntar se essa corrente é, realmente, aliada, ou se, ao contrário, inconscientemente faz o jogo da direita internacional. Ou até mesmo dolosamente, e desde já digo que essa hipótese é evidentemente absurda, às raias da teoria da conspiração. O argumento do "fazer coro com a direita" inconscientemente (e assim fazendo, sem querer, seu jogo) também é frágil, como se eventuais (vá lá, rotineiras) coincidências de opinião com a direita bastassem para que se deduza que tal corrente também é...direita.

Antes de tudo, não acredito no argumento do "fazer coro" com o que quer que seja, como algo a desmerecer determinada opinião. Acusações do tipo levam à simplificação binária da realidade: se A diz algo contra B, e C também diz, A e C são aliados! Como se tudo se reduzisse a dois lados (lembrando o texto da LIT acima: "de um lado...de outro lado...", um dualismo simplório). Mas as relações são multiangulares. C também pode ser contra A, afinal de contas. Tricolores e vascaínos são contra flamenguistas, mas isso em momento algum quer dizer que tricolores e vascaínos "façam coro" uns com os outros, como se houvesse algum laço, vínculo ou unidade entre os torcedores dos dois times. O exemplo futebolístico é pueril, por ser pueril o argumento do "fazer coro"; mas, se se quer um exemplo "sério", Hitler atacava os EUA, o que não quer dizer que quem igualmente ataque os EUA seja nazista ou "faça coro" com Hitler.

Devemos respeitar, no aliado, sua autonomia, mesmo para errar. Inclusive em face do subjetivismo do conceito de "erro": pode ser que o erro esteja em nós, afinal (falo no geral). A prática é sempre o critério da verdade. Erro e acerto se verificam in concreto. E se, em razão da sucessão de erros (ou, digamos: sucessão de opiniões antagônicas às nossas) o aliado segue outro caminho, simplesmente deixará de ser aliado. Sem cair no binarismo ("quem não está conosco está contra nós"), a distensão se resolve concretamente, nas ruas.

Por fim, penso que nós -que nos pretendemos marxistas- devemos, antes de tudo, nos preocupar com nossa própria práxis (entendida aqui também a teoria; não se pode dissociá-las)- o que fazemos e como fazemos, como nos inserimos na luta cotidiana. E não nos preocuparmos com o outro, como se fossemos censores ou detentores da verdade. Também sem entrar aqui na moral cristã ("não julgueis para não serdes julgados"), mais importante que apontar o erro do outro (o outro, o aliado, bem entendido; já o adversário é outra história) é mostrar, na prática, o nosso acerto.

5 comentários:

falaferreira disse...

Olá Tejo

Tendo a concordar com tudo o que tu dizes. Mas também sei (não tiro um doutorado em antropologia para outra coisa) que a visão do senso comum funciona dessa maneira: "Acusações do tipo levam à simplificação binária da realidade: se A diz algo contra B, e C também diz, A e C são aliados!" Assim, o marxismo é anti-senso comum.

Ora, esta rutura (epistemológica) do marxismo com o senso comum é o seu pior defeito. Não transformará ela o marxismo numa coisa de elites e não de operários? Ou, por outras palavras, não será o teu texto uma sobranceira de intelectual?

Lena Thaines disse...

Uma organização que se pretende marxista não pode se considerar portadora da verdade e muito menos adotar visões maniqueístas que em nada ajudam a explicar, mas pelo contrário, apenas obscurecem determinada realidade. Digo isso pensando em algumas seitas que se reivindicam trotskistas, mas que de tão radicais não obtém nenhum sucesso em educar os trabalhadores.

Ao mesmo tempo não se pode deixar de combater as posições equivocadas do PSTU. É verdade que a lógica binária está em contradição com a dialética, mas também é verdade que, quando um partido como o PSTU passa a defender as ofensivas dos imperialistas sob a justificativa da tal "revolução democrática", passamos por uma crise de tal ordem que fica cada vez mais difícil vislumbrar a superação do capitalismo. Não se trata, aqui,de uma "perseguição" aos militantes do PSTU. Trata-se da compreensão de que um dos maiores partidos da esquerda brasileira nada mais faz do que deseducar politicamente os trabalhadores brasileiros, e que ainda coloca-se na ordem do dia a construção de um partido revolucionário que combata tais equívocos ganhando, pouco a pouco, espaço dentro da esquerda.

Vanna disse...

Querido, gosto muito da forma como vc escreve. Mesmo não tendo uma opinião formada a respeito, fica bom te ler.

Achei perfeito esse parágrafo, pois ouvi algo bem parecido no Saia Justa do GNT.

"Devemos respeitar, no aliado, sua autonomia, mesmo para errar. Inclusive em face do subjetivismo do conceito de "erro": pode ser que o erro esteja em nós, afinal (falo no geral). A prática é sempre o critério da verdade. Erro e acerto se verificam in concreto. E se, em razão da sucessão de erros (ou, digamos: sucessão de opiniões antagônicas às nossas) o aliado segue outro caminho, simplesmente deixará de ser aliado. Sem cair no binarismo ("quem não está conosco está contra nós"), a distensão se resolve concretamente, nas ruas."

J.L.Tejo disse...

Mas é claro que se deve combater o senso comum. O marxismo, de tantas críticas -da Filosofia do Direito de Hegel, da Economia Política, da "crítica da crítica" ("A Sagrada Família") etc.- é o que é por combater o senso comum. Se se limitasse a reproduzir o "óbvio", "aquilo que está aí", seria qualquer outra coisa. Afinal- as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante. E nada deve parecer impossível de mudar, como diz Brecht ;)

Gilberto Mucio disse...

Entendo seu ponto, Tejo.

Mas a posição da LIT, a meu ver, pode ser resumida da seguinte forma:

1 - Assad é um tirano que sempre jogo do imperialismo.

2 - A MAIORIA esmagadora do povo da Síria está contra ele.

Ou seja, Assad sendo um ditador e as massas lutando para derrubá-lo, que tipo de argumento um comunista pode usar para ficar contra o povo e apoiar Assad?

Estão "torcendo" para a vitória de Assad e a derrota das massas? Eu acho isso totalmente absurdo.

E ainda... o texto pode levar a um pressuposto errôneo de que que a LIT é a favor de um intervenção imperialista na Síria.

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