terça-feira, 8 de novembro de 2011

Elogio da revolução (pelos 94 anos do Outubro Vermelho)


Escrevi o texto abaixo para o meu antigo blog (aqui). Por sugestão do companheiro Willian Almeida (@waa_3101), reproduzo-o aqui como homenagem aos 94 anos da Revolução Russa (25/ 10/ 1917, conforme o calendário juliano então em voga na Rússia, ou 07/ 11 pelo gregoriano).

Antes, há que se lembrar a profissão de fé nos versos de Maiakovsky: Quando eu/ resumindo o passado/ remexo nos dias de ontem/ procurando o mais vivo/ recordo sempre/ o vinte e cinco de outubro/ o primeiro dia.

*

Perguntam-me se o ser humano é um eterno insatisfeito. A resposta é sim, e o "querer" é justamente inerente à vida, conforme já falamos em outras postagens. Mas, se se pergunta se essa insatisfação será entrave para a sociedade comunista, eu digo não, naturalmente. Se justamente a insatisfação é o que nos faz chegar até ela, enojados que estamos com o velho sistema, com a velha exploração do homem sobre o homem. A classe trabalhadora -hoje, lato sensu: não mais apenas o trabalhador de fábrica, mas todos aqueles que têm sobre si o peso do Capital, todos aqueles, independentemente de origem classista, que odeiam a forma de produção capitalista- se une, um anseio em comum, e promove a revolução social. Também aqui é a vontade que gira a roda.

Mas e se não der certo? Se a revolução soçobrar? A primeira coisa que deve ser dita é que, na história da humanidade, os conceitos de "êxito" e "fracasso" são relativos. Um pobre carpinteiro palestino foi subjugado a pauladas e crucificado, não obstante sua doutrina hoje tem alcance planetário. A Comuna de Paris, reprimida em sangue, mas sempre um modelo de "assalto ao céu". No mito, Tróia saqueada e queimada, mas é dela que veio o povo romano que conquistou o mundo. E os exemplos se sucedem, na vida real e na imaginação mitológica, de fracassos que redundam em vitória, de insucessos que, no fundo, foram muito mais exitosos que conquistas evidentes. Isso é a dialética. No erro há o acerto, e também o acerto traz sua carga de erro. É questão de enfoque, de ponto de vista.

As revoluções burguesas, por exemplo. Não têm reiteradamente falhado? Peguemos a maior de todas, aquela que efetivamente deu ao termo "revolução" o sentido que tem hoje, a Francesa. Começou com "liberdade, igualdade e fraternidade" e culminou na...guilhotina. Será que somos nós os comunistas os únicos a cometer excessos? Seria bom se não houvesse medidas extremas: mas não há revolução sem elas. Isso choca os pacifistas, os diáfanos, os suaves, os bonzinhos. Também choca a mim: mas estou ciente de que as classes dominantes jamais renunciam voluntariamente ao domínio (Afanasiev). É por isso que, sem aplaudir, entendo o Terror dos jacobinos.

Fala-se muito, afinal, da violência de quem se levanta. Mas se esquece da violência de quem subjuga, de quem forçou o levante. Não se pode repetir a mentalidade do leão da fábula que, ao atacar sua presa e ser repelido por ela, vai embora lambendo as feridas indignado: "aquele animal é muito cruel, ele se defende quando atacado".

É o que Brecht quis dizer com este poema:

Quem Se Defende

Quem se defende porque lhe tiram o ar
Ao lhe apertar a garganta, para este há um parágrafo
Que diz: ele agiu em legitima defesa. Mas
O mesmo parágrafo silencia
Quando vocês se defendem porque lhes tiram o pão.
E no entanto morre quem não come, e quem não come
o suficiente
Morre lentamente. Durante os anos todos em que morre
Nao lhe é permitido se defender.

E com este:

Sobre A Violência

A corrente impetuosa é chamada de violenta
Mas o leito do rio que a contém
Ninguém chama de violento.

A tempestade que faz dobrar as bétulas
é tida como violenta
E a tempetasde que faz dobrar
Os dorsos dos operários na rua?

A paz não pode ser a do cemitério. Mas não é sobre violência das revoluções que quero falar- e sim sobre o saldo. Ainda a Francesa. Gerou a ditadura de Napoleão e desembocou no Congresso de Viena, com a restauração das monarquias destronadas. Um fracasso retumbante, como se vê, mas por outro lado um estrondoso sucesso: já era tarde para o Ancien Régime, já era tarde para os senhores feudais e as formas arcaicas pré-capitalistas. A burguesia assenhoreava-se, desde então, do mundo.

E a Revolução Russa? Os detratores, os anticomunistas, apontam sua queda. Perguntam em tom de ironia onde está a União Soviética, e dizem, como já ouvi, que a foice e o martelo estão manchados de sangue. De fato estão: mas do sangue dos exploradores.

A Revolução Russa trouxe ao mundo o primeiro Estado Operário da História. E, das ruínas de um país semi-feudal arrasado pela guerra civil e pela invasão armada de quase uma dezena de países capitalistas, deu à luz uma super-potência.

Isso não é pouca coisa. É algo a ser respeitado.

A Revolução Francesa teve Robespierre e Saint-Just à frente, a Russa, Lênin e Trotsky. Os franceses foram executados no golpe termidoriano de direita, no seio da própria revolução. Lênin teve um colapso, mas Trotsky, também ele, foi morto pelo golpe termidoriano dentro da própria revolução. A burocracia stalinista, a burocracia termidoriana, como ele a chamava, foi buscá-lo, já idoso e isolado, no México. A revolução traz dentro de si a contrarrevolução, gera, dialeticamente, seu próprio adversário. Com o golpe pela direita em seu próprio interior, a Russa não exauriu seus objetivos, como mais de um século antes também não a Francesa. O stalinismo cumpriu a profecia de Marx no "18 Brumário", sobre como a História se repete como farsa.

Mas, assim como no caso francês, os bolcheviques plantaram sementes sólidas em nossos corações. O legado, o exemplo- isso está gravado, é indelével. Não esqueceremos a lição.

Tudo vale a pena se a alma não é pequena, diz Fernando Pessoa. Os revolucionários não falham jamais- por mais que o resultado verificável diga o contrário. Quem falha, quem fracassa, são os reacionários, os conservadores, os acomodados. Os que têm medo da mudança. Não entendem que a própria vida é uma revolução constante, diária. O céu está aí para ser alcançado. Pode-se cair (e se tem caído) nesta busca pelas estrelas, mas é preferível à segurança mesquinha do ciscar em terra.

*

Tal é o texto. Reproduzo-o aqui para, deficiente que seja, servir de pequena homenagem.

3 comentários:

Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Willian Alves de Almeida disse...

Valeu Tejo, pela menção e divulgação do meu Twitter!!!

Abraço revolucionário.

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...