segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

De socialismos monárquicos


Morre Kim Jong-Il da Coreia do Norte. Como é de praxe, penso que ao analisar a experiência norte-coreana devemos evitar saídas simplistas ou reducionistas: o método deve ser o dialético e não o binário. Vejo muitos desprezando as informações que nos chegam do país, porque partiriam dos meios de comunicação burgueses: organizações Globo, Veja etc. Daí vão se refugiar, ora ora, nos meios de comunicação oficiais... norte-coreanos. Em ambos os casos a imparcialidade -se é que há órgão de informação imparcial desde que a imprensa existe- fica comprometida, e as coisas acabam por se reduzir a uma escolha, uma opção, acredito "nisto" mas não "naquilo".

A posição dos marxistas revolucionários é apenas uma: ao lado da classe trabalhadora. Os comunistas não têm outros interesses que não sejam os interesses do proletariado ("Manifesto Comunista"), e o proletariado é uma classe, não um partido ou um indivíduo. A luta é pela emancipação da classe trabalhadora -que redunda na emancipação da espécie humana como um todo- e se essa tarefa é colocada nas mãos de um líder ou partido, não há emancipação em absoluto: continuamos rebanhos à espera de messias. Já na Coreia do Norte o culto à personalidade exorbita, por incrível que pareça, o stalinismo soviético (que produziu editoriais do Pravda como "se você estiver cansado, pense em Stálin e encontrará novas forças..."): basta que se diga que o marco inicial do calendário do país é o nascimento de Kim Il-Sung, fundador do socialismo norte-coreano (e uma experiência socialista ter um "fundador" já é sintoma claro de deformação) e que de Kim Il-Sung o poder supremo passou a seu filho, o recém-falecido Kim Jong-Il, e deste para seu rebento, Kim Jong-Un.

É um socialismo "hereditário", reis e imperadores redivivos. Na "Crítica da Filosofia do Direito de Hegel" Marx diz que a monarquia se reduz à zoologia: o corpo do monarca (seu sangue, sua constituição biológica) é o que lhe torna superior aos demais. Na Coreia do Norte da "Ideia Juche" o socialismo acaba reduzido, também, a uma questão de sangue. Morre Kim Jong-Il, o "pai da nação" ("Kim Jong Il Will Always Live", aqui). "O rei está morto, viva o rei!".

É evidente que não há formato pronto de socialismo (Konder: "não vamos encontrar nos conceitos de Marx fórmulas prontas, mas, dependendo da abordagem, múltiplas possibilidades de prática econômica, política e cultural") e, como diz Trotsky, "os diferentes países chegarão ao socialismo com ritmos diferentes" ("A Revolução Permanente"), o que leva em conta não só as características de ordem material como também regionais e culturais- o socialismo russo do séc. XX não será necessariamente igual ao, digamos, brasileiro do séc. XXI. Contudo, em que pesem tais (inevitáveis) particularidades, o socialismo, na perspectiva do comunismo, tal como a teoria e práxis revolucionária de Marx e Engels é um só; caso contrário, estaremos falando de qualquer coisa, menos de marxismo.

É relevante destacar isso, porque já vi atribuírem o peculiar socialismo norte-coreano aos milenares hábitos culturais de seu povo, argumento de uma falácia atroz na medida em que isso também se aplicaria à capitalista e ocidentalizada Coreia do Sul. Na Coreia do Norte vigora um "socialismo em um só país", também extremado em relação à experiência soviética- ao mesmo tempo em que as declarações oficiais falam em "relações de amizade e cooperação com outros países", sustentam haver uma "economia nacional independente baseada em suas próprias forças" ("Acceleremos la construccion socialista enarbolando la bandera de la Idea Juche", de Kim Il-Sung, aqui) coisa que, se já era inviável na URSS continental, a fortiori o é na pequena e atrasada Coreia do Norte (como lembrou o Coletivo Lênin, aqui). Mas não é apenas nisto que se distancia do Marx elementar. A "Ideia Juche" -base teórico/doutrinária do regime norte-coreano- é apresentada como outorgada pelo "Líder" (isto é, Kim Il-Sung, uma tétrica semelhança com os "Guias" fascistas), o que leva a contradições com seus próprios princípios, pois não se pode dizer que o "homem é dono de seu próprio destino" e estar submetido ao "Líder". E somemos a isso todo um apelo à tradição, à dignidade nacional, a "genuínos patriotas e comunistas" ("Sobre la Idea Zuche", aqui). Decerto Marx não se reconheceria nisso.

A emancipação dos trabalhadores é obra dos trabalhadores, à luz necessária do internacionalismo. Tudo fora disso é uma caricatura, um arremedo de marxismo.

Mas deixemos de lado o aspecto político. Qual é o diagnóstico econômico da Coreia do Norte? Do ponto de vista das relações de produção, estamos falando de um socialismo, com toda a superioridade, frente à economia de mercado, que isso traz. Portanto, na questão norte-coreana os marxistas revolucionários devem relembrar a lição de Trotsky, mais de setenta anos depois: a tarefa em tal cenário é, ao mesmo tempo em que se combate a degeneração burocrática (com todos seus "pais da nação" e "grandes líderes"), defender irrestritamente as conquistas sociais do país. Devem ser rechaçadas quaisquer tentativas, por parte do imperialismo ocidental (incluídos aí Japão e Coreia do Sul, que se situam no mesmo campo econômico-militar dos ianques), de subjugar o país e o povo norte-coreanos. Uma nova aventura imperialista não é hipótese absurda, haja vista a necessidade da indústria bélica diante da crise econômica, apesar das "costas quentes" (a proteção da China) e as reiteradas bravatas acerca de armas nucleares por parte do regime norte-coreano (foi onde Saddam Hussein errou: ao invés de blefar sobre realmente possuir armas, negou possui-las e ainda chamou observadores internacionais para provar que falava a verdade).

Abaixo a camarilha burocrática e todos os "guias geniais" e "seres celestes" hereditários, viva às conquistas socialistas! Do ponto de vista marxista revolucionário, não há outra posição senão essa.

17 comentários:

Lena Thaines disse...

Quais conquistas sociais existem na Coréia do Norte, Tejo? Pelo que sei a burguesia não foi expropriada e vive das importações dos produtos chineses.

Maurício PCB/UJC/RJ disse...

Camarada Tejo foi preciso em suas colocações.Fugindo a qualquer tentação binarista, essa é postura Marxista revolucionária.

Coletivo Lênin disse...

Tejo,

muito boa postagem, vamos colocar o link dela no nosso artigo sobre o Kim Jong Il. Logicamente, permanecem as divergências, como caracterizar a formação social nortecoreana como socialista (Lena, a burguesia foi expropriada em 1945-1946 sim, em caso contrário, quais são as empresas capitalistas da Coreia do Norte?), mas o importante é que coloca como maior inimigo imediato do socialismo a própria burocracia nortecoreana.

Algumas correntes que têm a cara de pau de se chamarem de trotskistas nos acusaram, quando a gente publicou, de "capitular ao imperialismo" por causa das denúncias ao Kim Jong Il.

Só podemos lembrar da tomada de posição de Trotsky:

"Assim, se não é possível negar, antecipadamente, a possibilidade, em casos estritamente determinados, de uma frente única com a parte termidoriana da burocracia contra a ofensiva aberta da contra-revolução capitalista, a principal tarefa política na URSS continua sendo, apesar de tudo, A DERRUBADA DA PRÓPRIA BUROCRACIA TERMIDORIANA. O prolongamento de seu domínio abala, cada dia mais, os elementos socialistas da economia e aumenta as chances de restauração capitalista".

Lena Thaines disse...

Coletivo,
por não representar força social no país para realizar conquistas nacionais, a burguesia coreana apoiou a revolução socialista de modo que os meios de produção ficaram nas mãos do Estado. No entanto ela não teve seu bens confiscados e adquiriu o hábito de fazer carreira no partido. Além disso, vive do comércio, mais especificamente da importação de produtos chineses.

Sei muito pouco sobre a Coréia do Norte (pinço uma coisa daqui e dali), talvez possa estar equivocada.

Willian Alves de Almeida disse...

"Algumas correntes que têm a cara de pau de se chamarem de trotskistas nos acusaram, quando a gente publicou, de "capitular ao imperialismo" por causa das denúncias ao Kim Jong Il."

LBI, Coletivo? No mais, grande texto do tovarich Tejo. Vou divulgá-lo pela net.

Coletivo Lênin disse...

Willian, tamos falando da LBI e da LC (por enquanto, porque a TBI, a Liga Espartaquista e o IG ainda não se manifestaram - pra variar!).

Lena Thaynes, em primeiro lugar estamos pra ver o dia em que a burguesia vai apoiar uma revolução socialista!Se os meios de produção foram pro estado, logicamente foram confiscados da burguesia! Como pode existir burguesia sem propriedade privada?

Lena Thaines disse...

Coletivo,
Insisto, os meios de produção que pertencem ao Estado (e notem bem, evito sequer de falar que os meios de produção foram "socializados") são aqueles de fundamental importância para o governo norte-coreano. Aliás, a ausência de uma burguesia suficientemente forte fez com que as forças produtivas fossem desenvolvidas pelo Estado e não por uma classe social. A burguesia nacional não representou um obstáculo às reivindicações dessa suposta ideologia operária da Coréia do Norte, pelo contrário, o combate ao imperialismo beneficiou os comerciantes coreanos.

Não apoio a Coréia do Norte. Na minha concepção não passa de um ditadura militar.

Coletivo Lênin disse...

Lena,

taqui a CIA que não nos deixa mentir:

https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/kn.html

O que realmente acontece é que são permitidas empresas privadas em alguns setores, como era permitido na URSS na época da NEP:

http://www.dailynk.com/english/read.php?cataId=nk01500&num=8067

Nós não apoiamos a Coreia do Norte, mas somos contra a restauração do capitalismo.

Lena Thaines disse...

Coletivo,
Não entendi o porquê do link da CIA. Quanto à questão da NEP, transcrevo aqui Trotsky em A Revolução Desfigurada:

"O proletariado dirigente é obrigado a contar com outras classes e, segundo a proporção das forças no interior do país ou na arena internacional, a fazer concessões às outras classes a fim de manter seu domínio. TODA A QUESTÃO RESIDE NOS LIMITES DESSAS CONCESSÕES E NO GRAU DE CONHECIMENTO CONSCIENTE COM QUE SÃO FEITAS".

Trotsky alertava, em 1928, sobre o perigo da nova burguesia soviética surgida após a NEP. A ameaça restauracionista não se encontrava no partido, mas no Aparelho do Estado. Essa burguesia tinha interesse em fazer com que a revolução na China fracassasse com o objetivo de manter relações comerciais com a burguesia chinesa. No caso da URSS, a direção stalinista pendia entre a esquerda e a direita, e como muito bem salientou Trotsky, a luta contra os restauracionistas faria com que Stálin iniciasse uma batalha contra Bukhárin (representante da direita dentro do partido)tanto que pouco tempo depois este mesmo Bukharin foi expulso da direção da Komintern.

O fato é que no caso da Coréia do Norte essa burguesia, dependente das transações comerciais com a burguesia chinesa, já está mais do que integrada ao Aparelho norte-coreano. E no que diz respeito à restauração capitalista só tenho a dizer duas coisas:

1- A restauração já está sendo realizada. Assim como em Cuba, a Coréia do Norte está sendo reintegrada pouco a pouco no mercado mundial. Isso não é nada mais do que uma consequência do "socialismo em um só país". Querer reverter isso é um sonho desmedido. Além do mais, querer preservar uma economia planificada, sem socialização dos meios de produção, onde a burguesia está mais do que integrada ao Aparelho do Estado e onde a população se encontra na miséria considero a mais reacionária das atitudes.

2- Querer ou não querer a tal restauração é irrelevante em um momento onde sequer temos uma Internacional que nos possibilite mobilizar os trabalhadores norte-coreanos.

J.L.Tejo disse...

O papo tá bom! :)

Penso que é possível (ou mesmo inevitável) que elementos de sistemas diversos possam persistir, sem que o sistema dominante seja deturpado. Mas apenas elementos, jamais colocando em disputa a forma de produção dominante.

Especificamente aqui: mesmo sob o socialismo resquícios de burguesia podem continuar atuantes, sem que retire a caracterização socialista da experiência.

Na verdade, a discussão aqui, entre o CL e a Lena, é em torno da velha questão (velha porque está em aberto) da caracterização de um Estado Operário- quais seus elementos definidores, se é transição para o socialismo, ou, mesmo, se é sinônimo de Estado Socialista.

Lena Thaines disse...

"Penso que é possível (ou mesmo inevitável) que elementos de sistemas diversos possam persistir, sem que o sistema dominante seja deturpado. Mas apenas elementos, jamais colocando em disputa a forma de produção dominante."

Concordo plenamente, Tejo! ^^

Sobre esses elementos que convivem em um mesmo modo de produção recomendo um texto do Benoit: "O Programa, Trotsky e a América".

Coletivo Lênin disse...

Lena e Tejo,

vamos reproduzir esse debate no nosso blog. O companheiro Tejo corretamente apontou que o assunto aqui é a questão do Estado.

O Tejo está certo de novo quando fala em resquícios de capitalismo e burguesia na Coreia do Norte (ou, para sermos mais "técnicos", um modo de produção subordinado na formação social).

Sobre o link da CIA, Lena. A CIA, pela sua função na luta de classes, é obrigada a fazer análises concretas, que vão muito além das posições dogmáticas de correntes como o Lutte Ouvrière e CI-QI, que sustentam que a burguesia só pode ser expropriada por uma revolução socialista dirigida por um partido trotskista e que, em caso contrário, o que existe é um capitalismo de Estado.

A companheira continua sem poder dizer o nome de uma única grande empresa privada da Coreia do Norte, em um setor-chave da economia. É porque elas não existem!

Portanto, temos que admitir que a economia da Coreia do Norte, nos setores principais (grande indústria, comércio em grande escala, bancos etc) é planificada. O que não quer dizer, para nós do CL, que é socialista, porque o socialismo nós definimos como novas relações de produção baseadas no controle da produção pelos trabalhadores.

Mas capitalista a Coreia do Norte não é!

Existe uma tendência à restauração? Existe sim e falamos disso no nosso artigo sobre a morte de Kim Jong Il. Mas a realidade mostra que o processo está menos avançado do que em Cuba - pra não falar da China, onde se restaurou completamente o capitalismo.

Coletivo Lênin disse...

Sobre a segunda questão colocada pela companheira, se é relevante ou não defender a Coreia do Norte contra a restauração.

Para nós, ser internacionalistas não é uma coisa que dependa de algum tipo de organização existir (como a Internacional). Em alguns momentos, foram as próprias ações internacionalistas no movimento que criaram as condições para a formação de uma nova internacional (foi o caso da Segunda).

Nós somos um grupo muito pequeno. Mas, mesmo assim, formamos frentes únicas com outros companheiros e grupos para fazer manifestações de solidariedade internacional. Esse foi o caso do ato que fizemos no ano passado em defesa da Líbia, com o PCB do companheiro Tejo, a LC, a RC e outros grupos.

Esse tipo de atividade não é inútil, como pode passar para o senso comum. É um pequeno passo para despertar alguns setores da classe trabalhadora para lutarem contra os "seus" governos em defesa de um povo ameaçado pelo imperialismo. Ao mesmo tempo, se essas ações crescerem, podem elas mesmas incitar os trabalhadores do país defendido a se movimentarem, conforme eles percebem que não estão isolados.

Pudemos falar de várias situações em que isso aconteceu (Guerra do Vietnã, ocupação do Haiti etc), mas o essencial é entender que a nossa luta não é nem nacional nem local até estarem dadas as condições para construir uma nova internacional. A nossa luta deve ser internacionalista desde já!

Lena Thaines disse...

Coletivo,
Os camaradas tem razão quando não cito nenhuma "grande empresa norte-coreana". Isso se deve por dois motivos:

1- Reconheço que as grandes indústrias ainda pertencem às mãos do Estado;

2- Desde o inicio salientei meu pouco conhecimento sobre a Coréia do Norte (até porque as informações que temos de lá são muito precárias), mas sempre insisti e insisto na integração da burguesia importadora no Estado norte-coreano. Talvez se fosse especialista no caso poderia citar os nomes dessas pequena empresas. Espero, aliás que esse desconhecimento não invalide meus comentários.

Volto a dizer que se a economia é planificada, mas com uma burguesia integrada ao Estado (e não só Estado como também ao partido) e, ademais, sem o controle social da produção, não podemos caracterizar a Norte Coréia como um Estado Operário e sim como uma ditadura militar que aos poucos vai se inserindo na economia mundial.

Enfim, camaradas. Elogio vossa atitude e vosso internacionalismo, não poderia deixar de elogiar, não é mesmo? O problema é que não vejo necessidade em defender uma ditadura militar e tampouco quando não podemos mobilizar a classe operária norte-coreana, pois esta sim deveria sempre ser nossa preocupação.

Não digo que os senhores não se preocupam com a classe operária, muito pelo contrário, reconheço vosso esforço. Porém devemos estar conscientes de que não temos nenhum tipo de elemento organizativo-partidário para mobilizar aqueles trabalhadores.

E por fim, se o imperialismo estadunidense ainda não conseguiu fazer prevalecer seus interesses na Coréia do Norte isso se deve às alianças que a monarquia daquele local mantém com a China, não deixando de nos esquecer da burguesia importadora como tratei no meu post anterior.

Lena Thaines disse...

Em tempo,um pequeno adendo.

Não poderia deixar de tratar sobre a revolução dirigida por partidos trotskistas comentada pelos camaradas.

O trotskismo não se resume aos pequenos partidos espalhados ao redor do mundo. O trotskismo é muito mais do que isso. Ele representa ou se pretende representar a classe operária revolucionária no cenário mundial. O trotskismo toma uma posição de classe, e essa posição é tomada ao lado dos trabalhadores (estes últimos como vanguarda revolucionária) que lutam por uma economia planificada e além disso pela administração da economia estatal. O stalinismo e o maoísmo, pelo contrário - A posição classista deles se coloca ao lado da burocracia partidária contra o poder efetivo do proletariado. De modo que (SIM!) uma revolução socialista e até mesmo o marxismo só são possíveis dentro do trotskismo. Isso é mais verdade quando comparamos o trotskismo à ideologia proto-fascista/personalista Juche ou à ideologia pequeno-burguesa castrista de uma burocracia deformada.

Se (e apenas "SE") Capitalismo de Estado quer dizer "substituição da propriedade privada pela propriedade Estatal" e tão somente isso, poderíamos dizer que a Coréia do Norte não passa disso. No entanto, em "A Revolução Traída", Trotsky afirma como é complicada essa terminologia e trabalha muito melhor com o conceito de "estatismo", e este último realmente nada teria a ver com a Coréia do Norte.

A apreciação da CIA sobre a Coréia do Norte de nada nos vale.

Aproveito para reafirmar que o trotskismo, não apenas como corrente partidária, e sim como representante da classe trabalhadora e da revolução permanente (legitimamente marxista) nos obriga a concluir que, em verdade, nenhuma revolução socialista existe fora dele.

Coletivo Lênin disse...

Lena, já que você escreveu um balanço da discussão:

http://arevolucaopermanente.blogspot.com/2012/01/sobre-o-debate-na-nova-dialetica.html

Queremos agradecer a oportunidade do debate, que foi muito bom, e concluir com quatro pontos curtos.

1) Sobre você não conhecer quais seriam as empresas privadas nortecoreanas. Bem, se você fala que existe uma burguesia, e não pode dizer quais são as empresas que essa burguesia tem, isso para nós esvazia o teu argumento.

2) Você fala várias vezes em "ditadura militar". É lógico que a Coreia do Norte é uma ditadura militar, mas os marxistas não podem analisar somente a superestrutura estatal, eles precisam ver qual é a BASE SOCIAL da superestrutura.
E é claro que, mesmo havendo um pequeno setor privado, que além de tudo não é estratégico, o fato do principal da produção estar na mão do Estado, e ser planificado burocraticamente, exclui a possibilidade da Coreia do Norte ser capitalista.
Também não é socialista, porque a produção não é controlada pelos trabalhadores. Se trata, então, de uma economia híbrida, onde a burguesia foi expropriada mas não se formaram relações de produção socialistas.
Por isso as tarefas de uma revolução na Coreia do Norte são fundamentalmente diferentes das da Coreia do Sul. E a volta da propriedade privada seria um retrocesso, porque derrubar a burocracia é mais fácil que derrubar a burguesia, que é enraizada na produção.

3) Uma coisa é o trotskismo, outra é a classe trabalhadora. Concordamos com você que o trotskismo é a corrente que defende cnsequentemente os interesses de classe dos trabalhadores. Mas não se pode reduzir todas as expressões revolucionárias dos trabalhadores ao trotskismo.

A realidade mostrou que podem acontecer revoluções que criam estados operários (ou seja, baseados nas organizações de massas dos trabalhadores e camponeses), mesmo que deformados burocraticamente, mesmo sem direções trotskistas. Foi o caso de Cuba, da China e do Vietnã, que não foram porradas violentas no imperialismo, e nada de contrarrevolucionários quando aconteceram as revoluções. Aliás, como a expropriação revolucionária de burguesia pode ser contrarrevolucionária?

Mesmo que possamos criticar as direções desses processos (para nós, elas são centristas, porque expropriaram a burguesia mas não são internacionalistas nem defendem a democracia socialista), não podemos negar que elas fizeram revoluções socialistas de verdade.

4) Quando o Trotsky defendeu a derrota da Itália na guerra contra a Abssínia (atual Etiópia), ele não se importou com o fato de que não existia nenhuma organização de esquerda na Abssínia. é porque a luta contra o imperialismo deve ser INCONDICIONAL (ou seja, nem mesmo deve ser condicionada a existir um movimento de massas no país a ser defendido), até porque a luta pode criar condições políticas para a autoorganização dos trabalhadores no país.

Coletivo Lênin disse...

Acima, leia-se "Que foram porradas violentas no imperialismo"

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