quarta-feira, 29 de junho de 2011

Mudando a face do mundo (pelo livro)


Tenho cometido um pequeno pecado: estou comprando mais livros do que posso ler. Acontece que é mais forte do que eu, é uma coisa tipo Van Gogh, que disse "tenho uma paixão mais ou menos irresistível pelos livros" (carta a Théo, junho de 1880). Bota irresistível nisso: a livraria para mim é tentadora, e a Feira do Livro já é a própria perdição. Vincent prossegue: "...e preciso me instruir continuamente, estudar, se você quiser, assim como preciso comer meu pão". O problema é encontrar tempo para a digestão. Na época de Van Gogh era mais fácil: já nossa vida pós-moderna não nos deixa lá muito tempo para a leitura. Dos diversos tipos de "alimentação", a do espírito geralmente fica por último.

Logo, a "fila" vai crescendo e também isso nos dá ansiedade. Somos uma pilha de nervos: até os livros por ler nos deixam nervosos. Se bem que o filósofo Alain de Bottom, na Cult deste mês (a que tem o Slavoj Zizek na capa), diz que

a humanidade é muito ansiosa porque nossa sobrevivência, em grande medida, é baseada na preocupação. Os ancestrais calmos que acaso tivemos morreram muito tempo atrás; aqueles que sobreviveram foram os nervosos. Descendemos de pessoas que se preocupavam com a maior parte das coisas.

Ok, culpa dos genes.

Acho realmente que nos cobramos demais. Falta-nos parar, respirar, olhar ao redor. Pensar em nada, fazer nada (li sobre um certo movimento "nadista" em algum lugar), nem que seja por apenas cinco minutos ao dia. Um mestre zen apoiaria isso. A meditação zen nada mais é que olhar a parede, olhos semicerrados, a mente focada para além do pensar e do não-pensar, como diz o mestre Dōgen Kigen. É algo simples mas que, pelo singelo motivo de nos desacelerar, nem que seja por cinco minutos diários, vale a pena. É claro que, se perguntarmos a um mestre zen quais benefícios o zazen traz, ele bem poderá dizer, "nenhum". O zen é assim mesmo: desafia nossa mente ocidental, protesta, como fala D. T. Suzuki, contra o chamado senso comum. Mas experimentem. O difícil é não cair no sono.

Acho que essa "angústia" pelos leituras inacabadas (ou sequer começadas) é natural, na medida em que trabalho "incompleto", de qualquer natureza, é algo que normalmente incomoda. Mas além disso, a impressão que se tem é que, com o livro não lido, há algo -uma lição, aprendizado, conceito- que estamos deixando de desfrutar. É algo que estamos perdendo, e me lembro de alguém que comparou um livro não lido a uma carta não aberta. A mensagem partiu em vão: falta o receptor.

Mas o que de tão importante estamos perdendo?

O que eu quero perguntar precisamente é isto: pode o livro mudar nossa vida?

No "Trópico de Capricórnio", autobiográfico como é (ou supostamente autobiográfico, não importa), Henry Miller conta como conhecer Dostoievsky mudou sua vida. Eis suas palavras (tradução de Aydano Arruda):

A noite em que sentei para ler Dostoievsky pela primeira vez foi um acontecimento muito importante em minha vida, mais importante mesmo que meu primeiro amor. Foi o primeiro ato deliberado e consciente que teve significação para mim; mudou toda a face do mundo (...) Foi o primeiro vislumbre que tive da alma de um homem, ou poderei dizer mais simplesmente que Dostoievsky foi o primeiro homem que me revelou sua alma? Talvez eu fosse um pouco excêntrico antes disso, sem perceber, mas a partir do momento em que mergulhei em Dostoievsky fiquei definitivamente, irrevogavelmente, contentemente excêntrico.

Caramba, "mudar toda a face do mundo"! É uma das maiores declarações de amor que já vi serem feitas a um escritor.

Obviamente, não chega a ser um exagero, em se tratando de Dostoievsky, o autor dos mais-que-mundialmente-celebrados "Crime e castigo" e "Os irmãos Karamazov". Mas eu, pessoalmente, só li "O jogador"- e é uma obra menor, às raias da inverossimilhança, se é que podemos criticar isso da literatura. Oportunamente me aprofundarei em Dostoievsky. Já estou "calejado", mas nunca se sabe se mudará a face do mundo para mim também. Nunca é tarde para isso.

Outra obra que capturou muitos corações foi "On the road" de Keroauc. Consta que muita gente -Bob Dylan um deles- caiu na estrada após ler o livro, encantados com aquele espírito libertário. Pena que o próprio Kerouac tenha dado um giro de 180º e se tornado uma reacionário de marca maior, como lamentei neste post do antigo blog.

A ansiedade pelo livro não lido está, então, no desejo inconsciente pelo mundo a ser mudado que está lá, guardado, oculto. Perdido em meio àquelas páginas. Dê o primeiro passo: vire a capa, mergulhe naquilo. Não percebe que a face do mundo mudou? Palavra atrás de palavra, nada é mais o mesmo.

"A arte é sagrada quando não nos deixa intactos", diz Roger Garaudy. Não há literatura que não mude a face do mundo.

Enquanto isso vou comprando mais e mais livros. Não que eu os esteja lendo. Estão aqui, acumulando poeira, pilhas e pilhas crescendo exponencialmente. Mas não deixo de comprar. É compulsão, como disse.

Existe bibliólatras anônimos?

5 comentários:

Bruna Maria disse...

Haha, não sei se existem "bibliólatras anônimos", mas se eu descobrir, além de te avisar vou me inscrever em algum grupo também. =)
Me identifiquei muito com esse post. Essa compulsão pela compra eu estou medindo agora. Parti para um método: faço uma listagem dos títulos que quero muito ler, e só compro esses. Com o tempo, vou conseguindo ler o que compro, mas sempre fica alguma obra de fora. Ah, e não tenho entrado displicentemente em livrarias, pra evitar a compra de algo que me chame a atenção lá, rs.
Concordo plenamente com a ideia de que, livros não lidos são como cartas não abertas. Sempre acho que há muito o que aprender naquilo que não li, e quero ler mais e mais, só que não dá tempo.
Enfim, adorei o post! =)

Lena Thaines disse...

Eu também tenho essa angústia de não conseguir ler tudo o que quero. É foda, rs! Mas quanto ao "Jogador" de Dostoievski digo que, ao meu ver, é a pior obra dele. Até porque ele publicou esse livro quando precisava de dinheiro, ou seja, a arte em si não era algo essencial.

Bridget Jones disse...

Oi, vi seu comentário sobre "felicidade estar atrelada a casar e ter filhos" (na verdade, dizia o contrário) e achei, além de pertinente, muito honesto. Nem todo mundo tem coragem de pensar assim (eu penso e algumas vezes cospem na minha cara e dozem que sou amarga, egoísta e algumas vezes anticristo). De qualquer forma, fiquei curiosa e vim conhecer seu espaço.

Sofro deste mesmo mal: não consigo ler tudo o que tenho, nem tudo o que compro, nem tudo o que quero, mas enfim, sigo feliz na caminhada, fazendo paradinhas esporádicas pra escrever um blog sobre "doidos".

Curiosamente, agora ando viciada em Milan Kundera.

Parabéns pelo blog e pela opinião.

J.L.Tejo disse...

Acho que realmente é um utopia conseguir ler tudo o que queremos. Muita informação e pouco tempo. Tipo, "ars longa vita brevis". E também me ocorre que mais que quantidade, vale é a qualidade, o real aproveitamento do que foi lido.

Bridget, sou crítico do conservadorismo, de tudo que é arcaico e alienador. Não me lembro exatamente de qual post você está falando (acompanho trocentos blogs, rs), mas meu comentário deve ter sido nesse sentido. Obrigado pela visita, volte sempre.

Emanuella disse...

É basicamente aquela: Quando a mente se abre para algo, não tem como voltar atrás. (essa não é a frase literal, mas é mais ou menos isso. rs)

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