segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ao mestre, com carinho


Gostaria de estar com o gorro, mas ela não me deixou trazer: não gostava dele, me dava uma aparência de marginal, segundo dizia. O jeito foi encarar o frio de blusa de flanela apenas, mãos apertadas no bolso, após embarcá-la no ônibus para o trabalho. É a sina dos profissionais de educação da rede pública, acordar antes do galo cantar e embarcar, sonolentos, em ônibus pelas madrugadas geladas. Após colocá-la no veículo, tomei o rumo de casa, ruas desertas conforme me afasto da Central do Brasil, o frio glacial a ponto de esfumaçar a respiração. Já na minha rua ainda estava escuro, e naquela penumbra arborizada da Rua Paula Matos me senti caminhando pelas matas do próprio Lago Walden. Enfim chego, o lar, para dormir mais um pouco; mas para os professores da rede pública já começava o dia, turmas superlotadas de crianças, péssimas condições de trabalho- e muito assédio moral.

Eu tenho um respeito, às raias da veneração, pela profissão de professor. Ensinar uma pessoa a ler é nada mais nada menos que lhe abrir os olhos para o mundo. Tipo, dar asas. Bonito pensar que tudo que li até aqui -das leituras mais herméticas, dos mais variados campos do conhecimento, ao meu gibi do Demolidor- teve origem, lá atrás, nos métodos da Tia Rosita, na classe de alfabetização no Colégio Planck-Einstein em Copacabana. Aquela senhora -já era senhora na época- tem sua presença, marcada indelevelmente, em toda minha atividade, não só intelectual mas consciente. Do "'a' faz a abelhinha" chegamos a Robert Alexy.

Mas a formação que recebemos dos mestres -aqueles que realmente merecem esse título- vai além da alfabetização. Participam da construção do nosso próprio caráter. Nunca me esquecerei da verdadeira aula de ecologia que recebi, na 1ª ou 2ª série do 1º grau, com a professora explicando a importância de não jogarmos lixo no chão, denunciando, indignada, a poluição e toda sujeira que os homens fazem, sem que os políticos se mexessem. Sim, ela colocou a política no meio, falando com meninos de 8, 7 anos. Um dos alunos era filho de deputado- ela instou o menino a cobrar medidas ambientais do pai. É claro que o mundo não se tornou mais limpo depois daquele dia. Mas até hoje, quando preciso me livrar de um papel de bala, mas não há lixeira por perto, coloco-o no bolso para jogar fora quando der. Exatamente como ela nos ensinou, anos e anos atrás.

O 2º grau, claro, também ficou marcado. Mesmo porque é o momento, esse da aborrescência, em que mais precisamos de referências. Lembro-me do velho Fernandes, professor de Física. Católico fervoroso mas não carola, com ótimo trânsito entre a garotada, sempre um chiste e uma piada enquanto desenhava seus vetores no quadro-negro. Em 1994, no dia seguinte à morte de Ayrton Senna, todo mundo chocado (eu menos, porque nunca fui fã de Fórmula 1), ele brindou a turma com uma rica lição sobre vida e morte. Tanto tempo depois, não consigo me lembrar das palavras exatamente, mas o teor era este: valorizem a vida. Nunca se sabe -por mais rico, famoso ou vitorioso que sejamos- quando a morte chegará. Então valorizem cada minuto. Cada minuto.

E tinha também o Maciel, de Geografia. Careca e tatuado- e fã de Pink Floyd. Não, eu não gostava dele porque dizia que eu era o melhor aluno de Geografia da turma (bem, pelo menos em alguma coisa eu precisava me destacar). Gostava dele pela abordagem holística do assunto, apesar de na época eu não saber o significado de "holístico". Não adianta você ter tecnologia de ponta, dizia o professor, se você cospe no chão: continuará sendo subdesenvolvido. Era um chamado moral, ético, ao desenvolvimento, não apenas mecânico mas humano. Essa foi a grande lição que o Maciel nos deixou.

Daquela turma, quem captou a lição? Quem levou consigo pela vida? Será que eu mesmo apreendi o verdadeiro significado? Ou continuamos todos cuspindo pelo chão, literal e figuradamente? Precisamos superar o subdesenvolvimento. Do espírito.

E também a professora Lúcia Helena, de Literatura, e a Maria do Carmo (?), de Português, que me colocou uma vez na berlinda ao ler, em voz alta para turma, uma redação minha com o tema -sacal para um moleque de 17 anos- "O amor". Leu como se eu fosse um escritor consagrado, um Machado de Assis secundarista, enquanto a turma toda me encarava atenta. Tive vontade de enfiar a cara na mochila.

Essas foram as grandes figuras humanas que tive como professores, no Colégio Estadual Pedro Álvares Cabral, em Copacabana. Pode parecer fantástico, mas de todo os anos que estudei lá, não consigo pensar em sequer uma única lembrança ruim (havia problemas estruturais sérios, mas me refiro às pessoas).

Curiosamente, não tive professor comunista (nem na família). O marxismo me veio naturalmente, por instinto. Por assim dizer, fui meu próprio professor. E, se há dois homens que eu chamaria de mestres, no sentido mais amplo do termo (do puramente didático ao afetivo), são Vladimir Lênin e Leon Trotsky.

A profissão de professor é portanto das mais nobres que conheço- e das mais fundamentais, como fica claro. Daí dizer Lev Vygotsky:

A educação deve desempenhar o papel central na transformação do homem.

Causa indignação que esses profissionais, tão importantes e necessários, sejam tão maltratados pelas políticas públicas de qualquer governo. Parece haver um boicote deliberado contra os profissionais do ensino (aqui em sentido amplo, incluindo merendeiras, pedagogos, psicólogos etc). A educação é coisa de segundo plano. Isso quando não entregue, pura e deliberadamente, à iniciativa privada: fazem da educação (da própria formação do homem!) um negócio. E que dá muito dinheiro. Mas é preciso, para a classe dominante, que a educação seja mesmo coisa para poucos. Sua sobrevivência, enquanto classe dominante, depende disso: da ignorância, da alienação e do subdesenvolvimento espiritual.

É por isso que são importantes denúncias como as de Amanda Gurgel. Mas mais que a denúncia, é preciso que a mudança seja efetiva. E isso só será possível quando a classe trabalhadora assumir o poder. Afinal, o capitalismo -e as sociedades de classe em geral- é intrinsecamente antagônico à emancipação humana. Quando se mudar o foco, do ter para o ser, do competir para o cooperar, isto é, quando o ser humano se sentir em casa no mundo (Fromm, "o conceito marxista do homem"), educação e educadores receberão a primazia que merecem.

7 comentários:

Breno Corrêa disse...

Texto fantástico, maravilhosamente escrito. Sinal que Lúcia Helena e Maria do Carmo fizeram um bom trabalho. Devem se sentir orgulhosas.

Breno Corrêa disse...

Como disse Machado de Assim: "o professor é o pai intelectual do discípulo".

Bruna Maria disse...

Excelente texto. Quem dera sua visão fosse a predominante...

Ana Maria disse...

Eu, Ana Maria, professora/pedagoga/sofredora/sonhadora.
Eu poderia escrever um enorme texto aqui agora, mas diante de tão sábias palavras suas meu querido Tejo, eu me calo e, fico aqui a te admirar e contemplar a pessoa brilhante que tu és, pois captou muito bem cada mensagem de cada professor que passou por ti. Só resta-me, parabenizar-te. PARABÉNS pelo seu brilhantismo e obrigada pela bela homenagem a nós professores.

Beijos no seu brilhante coração.

Eu já te disse e repito: "Sou tua fã".

Anna Antunes disse...

Nossa esse texto tão nostálgico...excelente!!! Quando narraste do tetxo que escreveste sobre o amor, de imediato lembrei do ensino médio - quando escrevia poesias e meu professor de língua portuguesa dizia que eu seria uma ótima" letrista" e quando conversávamos sobre o velho obsceno.

Lena Thaines disse...

"Mas é preciso, para a classe dominante, que a educação seja mesmo coisa para poucos. Sua sobrevivência, enquanto classe dominante, depende disso: da ignorância, da alienação e do subdesenvolvimento espiritual."

Se entendermos que "educar" significa conscientizar, esclarecer e transformar, tendo por objetivo a construção de um novo tipo de ser social que seja capaz de agir de maneira crítica em seu ambiente de convívio, então concordo que para a sobrevivência das classes dominantes seria mais vantajoso que a educação estivesse restrita a uma minoria "escolhida".

Mas se, por outro lado, "educar" significa desempenhar um papel ideológico visando a reprodução dos valores das classes dominantes e, de quebra, a qualificação de futuros produtores, então seria obrigada a discordar. Neste caso a educação seria algo positivo para as classes dominantes, para a perpetuação da opressão e da mentira; para a perpetuação da alienação e da coisificação do ser humano.

Em um tempo não muito distante era necessário que as pessoas tivessem pelo menos o primeiro grau completo. A escola era necessária não apenas para inculcar na cabeça dos filhos dos trabalhadores valores que lhes eram totalmente alheios como também para adequá-los para a vida em sociedade. Era fundamental que as pessoas tivessem pelo menos algumas noções básicas para estarem capacitadas ao mercado de trabalho.

Hoje a burguesia se vê obrigada a ampliar o acesso à educação devido às novas exigências do Capital. Daí os colégios técnicos, as uni-esquinas, os pró-unis, etc etc. Porém temos de reconhecer que essa ampliação do ensino não pretende ser plena, pois se fosse, seria uma ameaça à hegemonia da burguesia.

Eis uma frase de Nietzsche, (que só pode ser referência a partir do momento em que o tenhamos como um porta-voz das elites) que ilustra muito bem o que estou dizendo:

"Uma expansão limitada da educação acabaria com os privilégios dos poderosos, e o sistema não pode ser tão irracional a ponto de cavar sua própria sepultura".

Entretanto eu ainda prefiro considerar a educação como sinônimo de conscientização. A educação que tem por objetivo a reprodução de valores de uma sociedade opressora é, para mim, anti-educação.

Lena Thaines disse...

Ali na frase de Nietzsche leia- se "ilimitada" ao invés de "limitada".

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