terça-feira, 13 de setembro de 2011

James Cannon


Nadar contra a corrente é difícil. É tão mais fácil se deixar levar: ser mais um no rebanho, na manada, é muito mais confortável e seguro. Afinal, não exige esforço, não exige trabalho. Vai-se com os outros: falou tá falado, contestar por quê? Penso inclusive que o ser humano tem uma queda por líderes. Freud deve explicar, mas as pessoas parecem precisar de um "pai". Se não colocam isso em termos religiosos, transplantam para os "Guias Geniais" populistas, à direita e à esquerda. Isso é superado conforme se cresça, simbolicamente falando. A criança ao se tornar adulta não precisa do pai lhe dando instruções, a classe trabalhadora organizada não precisa dos "Grandes Timoneiros" lhe dizendo o que e como fazer.

Valorizo quem nada contra a maré. Por princípio prezo a coragem: mas não a coragem do temerário, que não é bem coragem e sim irresponsabilidade. Mas a coragem em cumprir o dever, de fazer aquilo que se reputa correto. Arjuna enfrentou seus medos e pegou o arco, como Krishna o conclamava a fazer no Bhagavad Gita. Era o dharma do guerreiro, explicou Krishna, seu dever. Não se deve temer a consequência do combate, e sim temer a própria fuga do combate. Reparem que o dever é um elemento intrínseco dessa coragem. Há o soldado que combate sob as ordens de seu governo imperialista, e há o miliciano do povo que combate para defender sua família e terra da agressão imperialista. É evidente que apenas esse último pratica o "bom combate".

A coragem está, portanto, não em se expor a atos de violência; mas em se expor por achar (não digo "saber", em face da subjetividade) que é correto agir dessa forma, por mais que a própria vida se encontre em risco. Pessoas que agem assim têm meu eterno respeito.

Ser comunista em um país industrializado do Ocidente, sob forte ideologia liberal (na economia) e conservadora (na mentalidade), é seguramente nadar contra a maré. Imagine se esse país forem os United States of America, o próprio "Grande Satã". Os pioneiros que, da ala esquerda do Partido Socialista fizeram, em 1919, o Partido Comunista ianque, merecem profundo respeito. James Cannon (foto) enumera as dificuldades: lutas fracionais -exemplo de que dentro dos PCs, antes da degeneração, havia o direito de tendências-, sectarismo, prisões em larga escala de operários e militantes, deportação dos militantes estrangeiros, até a queda na ilegalidade. Havia obstáculos enormes, portanto, mas isso não impediu o crescimento e fortalecimento do partido: afinal, tinha um programa e método claros, os do marxismo e do leninismo. Daí diz Cannon ("A História do Trotskysmo Norte-americano"):

Não quero de nenhuma forma pintar a fundação do comunismo norte-americano como um circo, como fazem os filisteus que se mantém à margem. Não foi de nenhuma maneira. Houve lados positivos no movimento, e eles predominaram. Estava composto de milhares de revolucionários valentes e devotos. Apesar de todos os seus erros construíram um partido como nunca antes se havia visto neste país, quer dizer, um partido fundamentado num programa marxista, com uma direção profissional e militantes disciplinados. Aqueles que passaram o período do partido ilegal adquiriram hábitos de disciplina e aprenderam métodos de trabalho que iriam jogar um grande papel na história seguinte do movimento. Nós estamos construindo sobre estes alicerces.

Respeito os militantes abnegados que construíram o PC ianque. Mas respeito, mais ainda, aqueles que, como o próprio Cannon, uma vez verificada a degeneração irreversível do partido, lutaram pela preservação do marxismo e do leninismo. O stalinismo contaminou todas as organizações da Internacional Comunista. Nesse cenário, a opção primeiro era a disputa interna; debater, discutir, convencer. Mas as tenazes vão apertando, os "dissidentes" -isto é, quem não obedecia a "cartilha"- iam sendo perseguidos um a um, postos de lado, silenciados, caçados, e finalmente expulsos do partido. Com a exclusão da "oposição", os burocratas do partido obtinham a "pacificação". Decerto é mais fácil eliminar (figuradamente que seja) uma posição antagônica a ter o ônus de enfrentá-la. É como disse o historiador romano Tácito se referindo a seus compatriotas, "criam um deserto e chamam de paz". Nesse deserto de opiniões (heresia extrema para o marxismo, que é crítico e autocrítico) os burocratas poderiam dizer que, agora sim, o partido estava "em paz".

Mas os expulsos levavam consigo esse método fabuloso que citei, o do marxismo e do leninismo. Isso permitiu que a luta contra a degeneração stalinista do partido continuasse de forma coesa, e eis a Oposição se organizando, de fora, mas sem renunciar ao PC: a opção tática era a de se manter como fração externa. Vender o "The Militant" no outro lado da calçada, defronte à sede do PC, que ousadia! Isso é marxista. Evidentemente, os stalinistas não deixariam barato. Recorreram, como enumera Cannon, à calúnia, ao ostracismo, à violência física e ao gangsterismo e, até mesmo, ao roubo: saqueando seu apartamento e levando tudo, papeis, registros, documentos, tudo.

Por que o PC stalinizado chegou a esses extremos, contra o pequeno grupo da Oposição de Esquerda? Porque esse pequeno grupo estava do lado correto. Tinha a linha correta, a visão correta. Contra isso, os burocratas do PC só poderiam recorrer à violência: apelam à força porque não têm razão, como no poema de Brecht. E que tempos difíceis, para aquele pequeno grupo! Ao longo de todo esse tempo, não tinham a menor informação do camarada Trotsky, sequer se estaria vivo ou não. Então veio a notícia de sua expulsão da União Soviética pela burocracia stalinista, o que acabou por facilitar -apesar das dificuldades enormes- o trabalho da Oposição de Esquerda.

Por fim, o grupo de Cannon, uma vez verificado que a possibilidade de luta como fração externa do PC estava exaurida, viu chegar a hora -com o acúmulo da experiência das lutas de massa, como as greves de Minneapolis- de erguer o novo partido, e eis o embrião do Socialist Workers Party, seção norte-americana da IV Internacional. O SWP teve papel importante na luta contra o pablismo nos anos 50 (apesar de uma rápida -e devidamente autocriticada- hesitação inicial), como se vê na clássica "Uma carta aberta aos trotskistas do mundo inteiro" de Cannon, e em inúmeras lutas progressistas dentro dos EUA, para ódio dos inimigos pela "esquerda" e pela direita- Cannon foi preso pela "Smith Act", lei contra atividades subversivas. Posteriormente, o próprio SWP teria sido acusado de revisionismo, como no episódio de fusão do seu Comitê Internacional com o Secretariado Internacional pablista em 63, gerando aí o Secretariado Unificado, o que fez nascer a resistência da tradição espartaquista, pela esquerda. Cannon morreu em 1974. O SWP caminhou a duras penas, mas em plena decadência, chegando até mesmo a renunciar ao trotskysmo nos anos 80, convertido assim em pálida sombra do passado. Faz parte: não digo acima que o fundamental é lutar? "Perder" a batalha acontece. Mas nenhuma perda é perda total, há o legado e o exemplo.

Esta postagem é dedicada a James Cannon, portanto. O revolucionário que renunciou à sua confortável poltrona de couro- pela verdade e pela justiça.

2 comentários:

Coletivo Lênin disse...

Tejo, ótima homenagem ao Cannon.

Reproduzimos no nosso blog e fizemos alguns cometários. Aqui vão eles:

O Cannon foi uma figura fundamental em toda a história do trotskismo.

Foi ele que, no começo da Segunda Guerra, lutou contra a fração de Schachtman, no SWP (Partido Socialista dos Trabalhadores), a seção americana da Quarta Internacional. A fração defendia que a URSS era um nova sociedade de classes e, por isso, não deveria ser incondicionalmente defendida contra a restauração do capitalismo.-

O SWP, com Cannon como membro da direção, lutou contra o macartismo, inclusive defendendo militantes do PCUSA que fizeram espionagem para a URSS.

Em 1953, Cannon escreveu a "Carta Aberta aos Trotskistas do Mundo Inteiro", onde denunciou a linha da direção da Quarta Internacional, que achava que os PCs do mundo inteiro poderiam cumprir um papel revolucionário.

A crítica de Cannon foi certa (pra ter uma ideia, uma minoria da Quarta Internacional rompeu em 1954 e se dissolveu dentro dos PCs), mas ele errou ao romper com a internacional e criar o Comitê Internacional, com os grupos de Lambert e Healy.

As duas organizações estavam totalmente adaptadas à socialdemocracia (Healy dentro do Partido Trabalhista inglês e Lambert, na central pelega Force Ouvrière) e, na verdade, por trás das críticas estava a stalinofobia (ou seja, elas consideravam que o stalinismo era completamente contrarrevolucionário e que, portanto, qualquer movimento contra o stalinismo seria progressivo). Ou seja, capitulavam ao clima anticomunista do primeiro mundo.

Como prova que o SWP era ainda uma organização saudável, ele logo saiu dessa canoa furada. Em 1956, depois do posicionamento fundamentalmente igual do Comitê Internacional e da Quarta Internacional sobre a revolução antiburocrática na Hungria, Cannon e Peng Shu-tse (da seção chinesa) começam a lutar pela reunificação dos trotskistas.

Essa reunificação acontece em 1963, formando o SU (Secretariado Unificado da Quarta Internacional). Infelizmente, a autocrítica do pablismo foi parcial (Pablo sai do SU em 1964), e não impediu que se repetissem as mesmas concepções centristas. Tanto Cannon como a maioria do SU, dirigido por Ernest Mandel, consideram a direção cubana como revolucionária e trotskista inconsciente.

Por isso, a reunificação de 1963 foi uma puta de uma oportunidade perdida.

A Liga Espartaquista surgiu nessa época, lutando contra a posição sobre Cuba. Infelizmente, eles repetiram o mesmo erro de Cannon na época da Carta Aberta, e foram para o Comitê Internacional. Depois de serem expulsos de lá, criaram a sua própria corrente internacional, cada vez mais sectária e sempre capitulando ao stalinismo (por exemplo, não condenaram a invasão da Tchecoslováquia pela URSS em 1968).

Depois disso, Cannon continuou lutando pela fusão entre todas as correntes revolucionárias, como ele defendeu em "Novas Forças Revolucionárias estão Emergindo" (1962). Dentro do SU, ele combateu, junto com Moreno, a política de luta armada imediata na América Latina, que levou à destruição de várias seções. Infelizmente, mesmo a posição sobre a luta armada estando certa, tanto o SWP quanto o PST de Nahuel Moreno fizeram as críticas a partir de um ponto de vista muito próximo do social-pacifismo, refletindo as concepções centristas que já prevaleciam neles.

Resumindo: mesmo com todos os erros, James Cannon foi um grande revolucionário. A maior prova disso é que mesmo as correntes que romperam com o SWP quando ele estava na direção, como a Liga Espartaquista e o Partido da Liberdade Socialista (fundado por Clara e Dick Fraser), mesmo fazendo várias críticas (algumas corretas), se reivindicam cannonistas.

Icaro disse...

http://reagrupamento-rr.blogspot.com.br/2011/10/polemica-com-o-coletivo-lenin-sobre.html

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