segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pássaros


Olho no espelho os cabelos brancos e vem aquela cada vez maior sensação de tempo escoando. Talvez seja prematuro dizer isso, mas é impossível não notar o relógio da vida funcionando, o tic-tac inexorável. Muitos, mas muitos cabelos brancos. É o tempo que não retorna, é a certeza de que algo passou e ficou para trás.

É atribuído ao pai da medicina, Hipócrates, o bordão famoso, ars longa vita brevis, a arte é longa e a vida é curta. A pequenez do ciclo terrestre angustia diante da grandiosidade das tarefas que a vida coloca para nós: por mais que vivamos, não daremos conta, não concluíremos. Deixaremos inacabado. Pior se sequer começarmos, e então a angústia chega ao paroxismo.

Escrevendo este post, penso em duas situações que, diferentes que sejam, se encontram. O mote é a literatura: as relacionarei a livros.

Certa vez em um bar, em Copacabana, encontrei um antigo conhecido: era o ajudante do jornaleiro da minha antiga rua. Contei isso aqui, no velho blog. Ao ser perguntado por mim quais aspirações tinha -não me lembro o porquê de termos entrado nisso- respondeu de forma sucinta, "ficar vivo". É uma boa resposta, já que ficar vivo é conditio sine qua non pra realizar qualquer outra aspiração. Mas penso cá comigo que querer ficar vivo -isto é, o instinto de autopreservação- é próprio de qualquer animal. A barata quer viver, e é por isso que foge da chinelada. O que nos faz humanos é, justamente, nossa capacidade de compreender e atuar no mundo (sendo que mais importante que interpretar o mundo é transformá-lo, como diz a 11ª tese de Marx sobre Feuerbach). Viver por viver não é nada de mais. O bicho pode buscar isso.

Um dos livros de maior teor humanista que já li foi o "Terra dos Homens" de Saint-Exupéry. Sartre, em "Diário de uma Guerra Estranha", disse que esse livro de Exupéry o emocionava quase às lágrimas (citei isso aqui). A frase-síntese da obra é a do piloto Guillaumet, "o que eu fiz, palavra que nenhum bicho, só um homem, seria capaz de fazer". É essa atuação consciente no mundo que nos diferencia dos animais. Não o agir mecânico, irracional, movido pelo instinto, mas um agir qualificado, que é apenas nosso, humano.

(Digressionando: em todo caso, esse diferencial não faz do ser humano superior às outras espécies. Penso que do enfoque antropocentrista, devemos caminhar para o biocentrismo, a vida -em todas as suas dimensões- como o centro do universo; pode parecer meio riponga, mas é como tenho pensado).

Claro que essa atuação consciente não basta. Não basta querer: a ingerência na vida real está condicionada por "n" variáveis. Trazendo a questão para o aspecto meramente individual, não acredito, por exemplo, nos mitos de sucesso, do "garoto pobre que correu atrás e venceu na vida". Para cada bem-sucedido que teve origem em camadas humildes, há uma infindável lista, cruel, de desiludidos, fracassados, magoados, frustrados. O suicídio ou o alcoolismo como galardão. Se não simplesmente a pura mediocridade, o conformar-se com 2 salários minímos em troca de 8 horas por dia de vida, por quarenta anos a fio até encostar pelo INSS, mediocridade essa que também não deixa de ser um suicídio do espírito. O capitalismo tem nos enganado com essa balela: a de que é tudo questão de esforço, que "deus ajuda quem cedo madruga". Sem berço, sem pistolão, sem sorte, enfim, sem vento a favor, o sujeito não vai em frente. Conheço pessoas brilhantes superadas por imbecis. O lema comunista "de cada um de acordo com sua possibilidade, a cada um de acordo com sua necessidade" de Marx na "Crítica ao Programa de Gotha" ainda é sonho para o futuro.

Mas não percamos o foco. Querer ficar vivo, maravilhoso: mas sabendo o que vai se fazer dessa vida. E penso como Victor Serge, sobre como o "único significado da vida é a participação consciente na formação da História". Mas como é difícil que nós, tão mesquinhos, nos engajemos nisso...

A segunda história, relacionada ao assunto -aos assuntos: frustração, passagem de tempo, querer e não poder, assassinatos do espírito- encontraremos nas cartas de Vincent van Gogh a Théo. Falo mais precisamente da carta de nº 133 (na edição da L&PM), de julho de 1880. É um primor de lirismo, dor, fatalismo, esperança, tudo emplastrado no texto, como as próprias tintas de Vincent nas telas do pós-impressionismo.

A carta? Vincent, jovem mas já desiludido, sem dinheiro, semi-vagabundo para desgosto do pai pastor protestante, em busca da verdadeira vocação. Desabafa com o irmão mais novo de forma pungente. Agradece, humilhado, o dinheiro que este lhe enviava. Não tinha escolha, naquelas condições. Mas, por mais adversas que fossem as condições de sua vida (que, a bem de verdade, nunca melhorariam), Vincent não se rendia, pois

...esta coisa que se chama alma pretende-se que não morre jamais, e vive sempre e busca sempre mais e mais e ainda mais.

Então vem a comparação dramática: Vincent diz se sentir como o pássaro na gaiola, que quer voar mas não pode. O pássaro é tomado por inútil por não voar como os demais; mas preso como está, não pode voar. Aquele vagabundo é ninguém menos que esse pássaro: tem asas fortes e desejo de voar, mas as grades da gaiola o mantêm atado ao chão.

O livro que citei acima de Saint-Exupéry traz uma imagem parecida, quando fala dos efeitos que a passagem de pássaros migratórios tem sobre as aves domésticas. Querem imitar seus irmãos selvagens -alguma coisa em seu íntimo as impele a isso- mas não conseguem. No fundo, queriam, mas não podem, alcançar os vôos oceânicos. Assim é o "pássaro vagabundo" de Vincent van Gogh, vontade pura que não encontra o veículo material adequado para que dê vazão.

Quantas asas não têm sido cortadas. A sociedade de classes (a dos nossos tempos principalmente, a capitalista) é uma castradora de espíritos. Há que redimir van Gogh superando-a, há que abrir todas as gaiolas para que, livres, as aves alcancem os oceanos.

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