segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A questão líbia


E a crise na Líbia cumpriu uma etapa. Kadafi foi deposto, sob chuva de bombas da OTAN mas também sob protesto, legítimo, das massas líbias (ei, você acredita mesmo que o povo que celebrava na Praça Verde eram todos "agentes pagos do imperialismo"? se bem que dizem que foram cenas "montadas"...). Quando os protestos começaram a eclodir no Maghreb e no Oriente Médio, era evidente que o regime não passaria ileso.

Em março, eu escrevi o texto abaixo para o Diário Liberdade. Reproduzo-o a seguir, inclusive com as mesmas notas.

*

Neste exato momento, as bombas estão cruzando os céus líbios, atingindo, como sói acontecer (principalmente se tratando dos ataques "cirúrgicos" dos ianques), alvos civis e militares indiscriminadamente.

A contagem de mortos já começou e, como sabemos, o Iraque é testemunha, não costuma ser de números modestos. Mas, não esqueçamos: a matança começou antes da resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas de 17/ 01/ 2011 (1). Começou com a repressão, pelo regime de Kadafi, aos "bêbados e drogados".

Tenho dito: os levantes do Oriente Médio e Maghreb se inserem no amplo movimento popular desses países em busca de melhores condições de vida e das liberdades mais elementares, contra seus governantes títeres do Ocidente. O que diferencia Kadafi de um Mubarak é apenas o enfrentamento que o primeiro teve (prestem atenção ao tempo verbal) com o imperialismo. Mas os tempos mudam- e o poder, que é sedutor, amolece o mais raivoso. Ainda mais se tratando de um indivíduo excêntrico como Kadafi, o genial autor do Livro Verde (a primorosa obra onde aprendemos que "a mulher menstrua por ser fêmea, e o homem não menstrua por não ser fêmea"). Principalmente dos anos 2000 para cá, Kadafi se revelou mais um lacaio do imperialismo, fazendo a alegria das multinacionais petrolíferas e da direita europeia, de Berlusconi a Blair.

Kadafi se diferencia de Mubarak (e de outro ditador colega recém-escorraçado, Ben Ali da Tunísia) apenas por isso: seu passado (passado!) antiimperialista. Ah, mas há outra diferença: enquanto Mubarak, diante do ascenso da revolta popular egípcia, tentou negociar, inclusive mediante compensações financeiras, e renunciou quando viu não ter mais volta, Kadafi falou grosso e ameaçou eliminar os "bêbados e drogados" que promoviam as badernas, inclusive caçando-os de casa em casa. É um ditador que assume sem pudor sua ditadura. Não cogita, não finge cogitar, a existência de uma oposição, de insatisfeitos, de vozes dissonantes- cuja existência é normal e saudável em qualquer lugar do mundo. Não vestiu a capa democrática nem, com o perdão da ironia, "para inglês ver". Os opositores eram isso: bêbados e drogados sob as ordens de Bin Laden! Talvez Kadafi tenha mesmo motivo para temer a Al Qaeda. Não cedeu o território líbio para a CIA "interrogar" (mas que eufemismo infeliz) suspeitos de "terrorismo"? Mas, Sr. Kadafi, se você é tal inimigo da Al Qaeda, a ponto dela fomentar "bêbados e drogados" para derrubá-lo, por que diabos os EUA -que querem justamente fortalecer governos que sirvam de freio às organizações terroristas- estariam interessados na queda de seu regime, como a partir de certo momento você começou a acusar? Coisas que não batem. A política é assim mesmo.

Diz Trotsky que "governar é, em certa medida, prever" (2). Causou espanto a pouquíssima habilidade política de Kadafi em resolver, "pacificamente", a crise. Ainda mais vinda de alguém já há 40 anos no poder. Ao invés do diálogo e das mediações, a truculência e a bravata. Se bem que, como diz Trotsky de novo, "a luta política é, no fundo, a dos interesses e das forças, não dos argumentos" (3). Força invés de argumento, tal é a receita do déspota (nada esclarecido) Muamar Kadafi. Reformas na constituição, mudanças nisso e naquilo- e não estaríamos presenciando a escalada de nova invasão imperialista num país árabe. Mas não: Kadafi prometeu esmagar os "bêbados e drogados"- e arrastou a Líbia à guerra civil. O pretexto que o Ocidente esperava.

O povo líbio (quero dizer, a classe trabalhadora e as forças progressistas líbias; socialistas, seria pedir muito, 40 anos de Kadafi não deram brecha para isso) tem diante de si, agora, duas frentes de batalha. O inimigo interno, Kadafi e seus sequazes, e o externo, que é decorrência do interno. A solidariedade internacionalista, que move a nós marxistas, faz com que levantemos, alto, a palavra de ordem que, mais do que nunca, deve ser: "Pela autodeterminação do povo líbio!" (4).

Notas

(1) Último Segundo: "Conselho de Segurança aprova zona de exclusão aérea na Líbia"- http://bit.ly/f1Xmfo

(2) Leon Trotsky, "A revolução traída".

(3) Trotsky, idem.

(4) "Contra a invasão da Líbia e a guerra imperialista", nota do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB), de 20/ 03/ 2011- http://bit.ly/eqrhBB

*

Mais do que nunca, é preciso fugir do reducionismo como o diabo foge da cruz. Seria muito simples (e portanto mais fácil) enxergar aí o "bem contra o mal"; o "mal" o imperialismo e o "bem", por exclusão, o regime de Kadafi. Mas isso é maniqueísmo, e não método dialético. É por isso que o Partido Comunista Brasileiro coloca a questão corretamente: "Para o PCB, não se trata de defender o governo de Kadafi, mas de combater o imperialismo. O regime inspirado no 'Livro Verde' não é socialista nem democrático" ("Líbia: contra a guerra imperialista!", nota do CC do PCB de 26/ 08/ 2011). Não é, absolutamente não é nem socialista nem democrático. É um recado claro para os binários: combater Kadafi não significa apoiar a OTAN, combater a OTAN não significa apoiar Kadafi.

Pois bem, o texto que escrevi acima é de março. É preciso que nos voltemos agora para o futuro da Líbia. É nebuloso, pela atuação direta da OTAN. Disseram que não se meteriam na transição; óbvio que é mentira, mormente levando em conta o potencial petrolífero do país (o Iraque caiu por que mesmo?). Alan Woods, neste texto, lembra algo certeiro: a OTAN não confia exatamente nos rebelados, daí a recusa desde o início em armá-los apropriadamente. O medo é evidente: o de as coisas saírem do controle...

Esse seria o momento perfeito para que, houvesse uma vanguarda revolucionária, a classe trabalhadora líbia avançasse. Mas não há movimento revolucionário na Líbia de hoje. Quarenta (!) anos de Kadafi, como eu digo no texto, não permitiram isso. Esse é um detalhe que a "esquerda senil" (aquela que apoia acriticamente Kadafi, aquela que vê em Kadafi um grande dirigente da humanidade) não percebe, ou percebe e, coerente com sua mentalidade senil, não leva em conta. O mesmo vale para Ahmadinejad no Irã: "todo apoio!", bradam, mas o regime dos aiatolás é anticomunista até a medula...O mesmo vale para o Hamas palestino e o Hezbollah libanês.

Não digo que não devamos apoiar esses movimentos. Ao contrário: entre o Hamas e o sionismo a escolha é óbvia. Mas os marxistas somos dialéticos e não binários, e sabemos o que queremos. Não um Kadafi ou rebaixados pan-arabismos ou nacionalismos burgueses (ou, pior ainda, o messianismo islâmico), e sim a revolução socialista da classe trabalhadora.

É preciso jamais esquecer que os Kadafis, os Saddans, os nacionalismos pan-árabes (e suas variantes pelo mundo) com muita frequência têm sido, justamente, os grandes entraves da emancipação da classe trabalhadora de seus países.

4 comentários:

Coletivo Lênin disse...

Tejo, o CL acabou de publicar uma declaração sobre a Líbia:

http://coletivolenin.blogspot.com/2011/08/khadafi-cai-derrubado-pelo-imperialismo.html

J.L.Tejo disse...

Boa. Essencialmente, tem acordo.

John disse...

O papel dos revolucionarios realmente leninistas seriam combater as intrigas imperialistas contra Libia. Aquela rebeliao nao foi espontanea mas criada por organizacoes vinculadas com a CIA e servicos secrets ingleses e franceses. Os problemas internos libios deveriam ser considerados assuntos internos do pais. A midia estavam inventando massacres da populacao civil. Ja na epoca o Pravda estava publicando noticias que os supostos ataques aereos realizados pela forca aerea libia contra cidades rebeldes eram boatos. Os satelites e radares russos desmentiam essas informacoes publicadas na midia dos paises imperialistas. O papel dos revolucionarios seriam combater os imperialistas dentro de seus paises e isso nao ocorreu. Ao contrario e maioria dos chamados partidos de esquerdas sucumbiram a propaganda da midia e deram cobertura a um ataque imperialista Ocidental contra um pais africano. Se 1914 marcou o fim de uma era, representado pela traicao dos partidos social democratas, marco 2011 marcou o fim de uma outra era. Quando a maioria dos chamados partidos de esquerda juntaram o imperialismo.

J.L.Tejo disse...

John, obrigado pela opinião. Nesta postagem, também falamos da Líbia: http://www.novadialetica.com/2011/12/inventario-2011.html

O post está enriquecido pelo comentário de um companheiro do PSTU, contribuindo para esse debate que está longe de encontrar um consenso.

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