segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A propósito de mafiosos


Dia desses estava na Saraiva livraria (nada de propaganda aqui), fazendo hora, quando me detive em uma obra em especial: o "Cosa Nostra- a história da máfia siciliana", de John Dickie, cujo tema, claro, é a máfia. Vale a pena, pelo que pude notar da rápida folheada, apesar do preço salgado. Como não podia deixar de ser, logo na introdução é citado o The Godfather de Coppola, traduzido ali literalmente como "O Padrinho". Não podia deixar de ser, pois a arte imita a vida e vice-versa, e quem pretende escrever um bom livro sobre a máfia deve obrigatoriamente citar o melhor filme sobre a máfia.

"A violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais", canta a Legião Urbana em "Baader-meinhof blues". Já falei, neste post, sobre o fascínio que as pessoas têm por emoções fortes -sangrentas, pesadas- mesmo que virtualmente (e, felizmente, virtualmente). Mas a Máfia fascina não só pela violência como também pelo glamour- ao menos a máfia estilizada dos cinemas. Os "homens de honra" elegantemente vestidos, charutos caros e restaurantes de luxo, compartilhando o alto círculo de políticos e autoridades públicas. Aparentemente são empresários normais: mas, no fundo, na calada da noite, o verdadeiro negócio é movimentado.

Don Vito Corleone -interpretado pelo monstro Marlon Brando- é um mafioso à moda antiga. Envolvido com a delinquência quase sem querer (através de Clemenza), começa a sua rede a partir do ramo do azeite, construindo gradualmente um império. Todos lhe pedem proteção. A cena de abertura do primeiro da trilogia é clássica: quando a justiça "oficial" fracassa, é a Don Corleone que o pai de uma moça ultrajada pede auxílio. "Por que foi à polícia e não a mim?", pergunta o velho mafioso. O pai suplicante explica embaraçado que queria ser um cidadão dentro da lei. Isso ofende o capo, tomado assim como uma má companhia a ser evitada. Mas ainda assim Don Corleone perdoa o ultraje e promete justiça. O Don é generoso. Mas tudo tem um preço: o suplicante se torna devedor de um favor, que pode ser cobrado a qualquer momento. É algo como vender a alma ao diabo.

O que assusta no mafioso, o que lhe torna letal, é sua penetração nas malhas do Estado. O Estado, que no imaginário coletivo (ah sim, e também para os austeros sábios da Teoria Geral do Estado e da Filosofia Política) é a salvaguarda do cidadão, acaba servindo para abrigar seu próprio inimigo. O policial, o juiz, o deputado; nenhum é mais insuspeito. Podem estar no bolso.

Na época da faculdade, escolhi como tema para minha monografia de conclusão de curso a lei 9.034/ 95, que "dispõe sobre a utilização de meios operacionais para a prevenção e repressão de ações praticadas por organizações criminosas"- isto é, a "lei do crime organizado". É uma lei defeituosa (pra variar), com flagrantes inconstitucionalidades, como quando faz do Juiz o "investigador". Uma das grandes deficiências da lei, conforme apurei durante a colheita de dados para o trabalho, era a ausência de definição do que seria "organização criminosa". Uma quadrilha de meia dúzia de trombadinhas pode ser considerada? Uma família que venda produtos de descaminho armazenados no quintal de casa é? Na falta da definição legal, a doutrina (isto é, o corpo pensante e dinâmico dos operadores do Direito) vai criando suas próprias definições. Assim, um dos traços da organização criminosa é, efetivamente, seu poder corruptor dentro do aparelho estatal.

Se nem no agente da lei se pode confiar, a quem recorrer? "Chame o ladrão", diz a música do Chico Buarque.

Esta postagem sobre "O Poderoso Chefão" já estava programada, quando veio a notícia do assassinato de uma juíza criminal, em Niteroi, metralhada enquanto chegava em casa. Com um rol de inimigos que ia de milícias em São Gonçalo a "máfias da van", passando por grupos de extermínio, é o óbvio ululante dizer que ela foi vítima de um crime encomendado. Isso é crime organizado: nem ao magistrado respeitam. E isso é grave. Não apenas pela vítima em si, afinal o juiz não é melhor que ninguém e diariamente jovens da classe trabalhadora são massacrados nesse país sem que haja a menor comoção pública, mas pelo simbolismo do cargo. O crime organizado não respeita o Estado-Juiz, respeitará muito menos o cidadão. Eu e você.

E sem um pingo da sabedoria de Don Vito Corleone. Vida real, esqueçam o cinema.

O velho mafioso já está cansado de tantas vendettas. As outras famílias mafiosas já querem mudar de ramo, acrescentar o tráfico de drogas. As coisas já não são mais como eram antigamente, quando era um jovem imigrante siciliano começando a vida em Nova Iorque. A violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais, morte chama morte e sangue se lava com sangue. A paz nesse cenário é uma utopia, se se vive justamente da guerra.

Morre Vito e assume Michael. Pior que o pai. No último filme da trilogia até o Banco do Vaticano entra na jogada, a hipocrisia e corrupção dos bispos expostas. Michael, que matou o irmão em sua paranoia de mafioso, também quer sair. O sobrinho quer entrar. A filha é assassinada numa vendetta. A violência é tão fascinante e nossas vidas são tão normais, morte chama morte.

E enquanto isso as vítimas vão sendo metralhadas ao chegar em casa.

2 comentários:

Marli Savelli de Campos disse...

Lendo seu post eu me dou conta de que a gente se fecha num mundo de faz-de-conta que é tudo cor-de-rosa ou azul,
enquanto a mafia é um mundo negro, e está aí, borrando maquiagens...
É muito pesado carregar a dor do mundo - ser sensível a tudo isso - Eu queria um mundo limpo e justo, com cheiro de alegria - a gente "afrouxa" por sentir incapaz de tal...

Breno Corrêa disse...

Então quer dizer que analisou as normas teratológicas da Lei 9.034/ 95?

E graças ao Rio de Janeiro os magistrados estão em polvorosa. Tem até Comissão Extraordinária para política de segurança da magistratura, instaurada pelo STF.

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