sexta-feira, 15 de março de 2013

Minha filosofia - II


Na ausência de um "sentido" metafísico, de um "plano" divino para nossas vidas, é muito fácil cair no desespero. Sem uma rede de segurança, somos obrigados a, antes de tudo, compreender e aceitar a realidade para, então, transformá-la (se possível). O materialismo aqui, afinal, deve ser o dialético de Marx, revolucionário, e não o materialismo -às raias, que contradição, do idealismo- contemplativo de Feuerbach. Essa nova abordagem leva a uma postura diferente diante da vida. Consiste nisto: se não há recompensas post mortem, se tudo se exaure com a morte (o ser humano sendo único e irrepetível, como diz Adam Schaff ; uma vez morto, nada nunca mais lhe será idêntico), temos que simplesmente não vale a pena esquentarmos a cabeça

O desespero dá lugar à serenidade. É questão apenas de mudar o foco.

Sendo a vida única (ela é sagrada justamente porque é tudo e o resto nada, no poema de Antonio Cicero) não é razoável que a desperdicemos com ninharias. Assim vê-se o acerto da fala de Trotsky (aqui), sobre a necessidade do ideal que nos eleve para além das fraquezas e misérias pessoais. Há que extrair o máximo dessa experiência que, repito, é única. E isso também significa potencializar ao máximo os prazeres -em suas diversas formas- possíveis.

Não quero aqui endossar um hedonismo inconsequente. A satisfação extraída da vida inclui, também, a satisfação que se possa dar aos outros. O prazer só é digno desse nome na medida em que resulte em satisfação aos demais ou, no mínimo, que não venha a prejudicar quem quer que seja. O egoísmo sai de cena. A vida, justamente pela sua irrepetibilidade, por ser uma experiência única, é maior que nosso umbigo.

Sintetizando: a) não há Deus ou deuses nem existência post mortem; b) tudo que ocorre é responsabilidade nossa; c) pela sua irrepetibilidade, deve-se aproveitar ao máximo a experiência do "estar vivo"; d) isso implica serenidade e desfrutar ao máximo os prazeres existentes; e) tal prazer inclui o bem-estar alheio.

Vamos nos deter nesse último item. Se Deus não existe, o homem ocupa o seu lugar. Temos uma abordagem humanista, e eis Marx nos "Manuscritos..." (aqui):

(...) Uma vez que a essência do homem e da natureza, o homem como um ser natural e a natureza como uma realidade humana, se tenha tornado evidente na vida prática, na experiência sensorial, a busca de um ser estranho, um ser acima do homem e da natureza (busca essa que é uma confissão da irrealidade do homem e da natureza) torna-se praticamente impossível.

Marx prossegue, dizendo que o ateísmo, ele próprio, não faz mais sentido; pois consiste na negação da religião, enquanto o comunismo -aonde queremos chegar- é a negação da negação. Chega-se assim à "autoconsciência positiva humana, não mais uma autoconsciência alcançada graças à negação da religião" (idem). Como quer que seja, temos aqui o foco no Homem. É uma posição radicalmente -vai à raiz- humanista. Esse humanismo (que dever ser não-especista, afinal é a vida em toda sua diversidade -e não apenas humana- o centro do universo, daí "biocentrismo") faz com que, quando falo em buscar o prazer (itens "c" e "d" acima), inclua, necessariamente, a busca pelo prazer alheio. Do humanismo chegamos ao altruísmo, portanto, mas não motivado pelo moralismo religioso e as velhas arengas de "bem ao próximo", e sim por enxergar, nele, o próximo, algo sagrado como eu próprio. O meu bem não se disassocia do bem da Humanidade; e isso implica em engajamento. Afinal: não posso ser feliz onde há exploração, não posso ser livre onde há opressão. Inúmeros autores já disseram isso, e não apenas marxistas, mesmo que em outras palavras (Thoreau me vem à mente, por exemplo), logo não se trata de descobrir a pólvora. Na dualidade capitalismo e socialismo, portanto, só cabe a preferência ao último; o individualismo do primeiro é, radicalmente (de novo: raiz) antagônico ao viés humanista do qual falamos. Da competição devemos caminhar para a cooperação. Da apropriação privada para a apropriação social. A luta pelo bem alheio, assim, leva à luta pela sociedade comunista. Sem engajamento todas as belas intenções e palavras serão inúteis, e tanto fariam se não existem- como o próprio Deus.

Falemos de novo em Adam Schaff. Os trechos abaixo são d'"O marxismo e o indivíduo". Grifei:

(...) a finalidade da vida seria a aspiração a um máximo de felicidade para as massas humanas amplas e, só desta forma, se conseguiria realizar a aspiração para felicidade pessoal (...) O adepto do humanismo socialista está convencido de que só se consegue a felicidade pessoal através da felicidade da sociedade, porque somente a expansão da esfera do desenvolvimento da personalidade e da possibilidade da satisfação das diversas aspirações do homem cria, na medida social, uma base permanente para a realização das aspirações pessoais.

Podemos já agora incluir mais um item na síntese acima. Ei-lo: f) a participação na busca do prazer alheio (i.e. social) requer engajamento revolucionário.

Simples assim.

*

Há uma coisa que eu quero deixar bem clara. Eu falei acima sobre "serenidade" e em "não esquentarmos a cabeça", nos concentrando, ao invés disso, na maior satisfação possível extraída da vida. Mas não quer dizer que eu consiga viver como falado. Importante ressaltar isso, para que eu não seja tomado por um charlatão ou hipócrita. Muito pelo contrário: meu cotidiano não se parece muito com essa serenidade falada no post; racionalmente eu sei o que é bom, mas entre teoria e prática vai uma larga distância. Não se espantem portanto se, apesar de palavras tão edificantes, eu vier a ser presa da depressão- pensem no "façam o que eu digo mas não façam o que eu faço" e estamos acertados.

Falta muito para que eu chegue ao estado búdico, afinal de contas.

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