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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Mudando a face do mundo (pelo livro)


Joycemar Tejo
junho de 2011

Tenho cometido um pequeno pecado: estou comprando mais livros do que posso ler. Acontece que é mais forte do que eu, é uma coisa tipo Van Gogh, que disse "tenho uma paixão mais ou menos irresistível pelos livros" (carta a Théo, junho de 1880). Bota irresistível nisso: a livraria para mim é tentadora, e a Feira do Livro já é a própria perdição. Vincent prossegue: "...e preciso me instruir continuamente, estudar, se você quiser, assim como preciso comer meu pão". O problema é encontrar tempo para a digestão. Na época de Van Gogh era mais fácil: já nossa vida pós-moderna não nos deixa lá muito tempo para a leitura. Dos diversos tipos de "alimentação", a do espírito geralmente fica por último.

Logo, a "fila" vai crescendo e também isso nos dá ansiedade. Somos uma pilha de nervos: até os livros por ler nos deixam nervosos. Se bem que o filósofo Alain de Bottom, na Cult deste mês (a que tem o Slavoj Zizek na capa), diz que

a humanidade é muito ansiosa porque nossa sobrevivência, em grande medida, é baseada na preocupação. Os ancestrais calmos que acaso tivemos morreram muito tempo atrás; aqueles que sobreviveram foram os nervosos. Descendemos de pessoas que se preocupavam com a maior parte das coisas.

Ok, culpa dos genes.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Ao mestre, com carinho


Gostaria de estar com o gorro, mas ela não me deixou trazer: não gostava dele, me dava uma aparência de marginal, segundo dizia. O jeito foi encarar o frio de blusa de flanela apenas, mãos apertadas no bolso, após embarcá-la no ônibus para o trabalho. É a sina dos profissionais de educação da rede pública, acordar antes do galo cantar e embarcar, sonolentos, em ônibus pelas madrugadas geladas. Após colocá-la no veículo, tomei o rumo de casa, ruas desertas conforme me afasto da Central do Brasil, o frio glacial a ponto de esfumaçar a respiração. Já na minha rua ainda estava escuro, e naquela penumbra arborizada da Rua Paula Matos me senti caminhando pelas matas do próprio Lago Walden. Enfim chego, o lar, para dormir mais um pouco; mas para os professores da rede pública já começava o dia, turmas superlotadas de crianças, péssimas condições de trabalho- e muito assédio moral.

Eu tenho um respeito, às raias da veneração, pela profissão de professor. Ensinar uma pessoa a ler é nada mais nada menos que lhe abrir os olhos para o mundo. Tipo, dar asas. Bonito pensar que tudo que li até aqui -das leituras mais herméticas, dos mais variados campos do conhecimento, ao meu gibi do Demolidor- teve origem, lá atrás, nos métodos da Tia Rosita, na classe de alfabetização no Colégio Planck-Einstein em Copacabana. Aquela senhora -já era senhora na época- tem sua presença, marcada indelevelmente, em toda minha atividade, não só intelectual mas consciente. Do "'a' faz a abelhinha" chegamos a Robert Alexy.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O horror, o horror


Joycemar Tejo
maio de 2011

É um truísmo, mas o ser humano é contraditório. Um masoquista, por exemplo: sentir prazer onde os demais sentiriam dor é no mínimo inusitado. Gostar de rúcula é outra coisa que não entendo, idem torcer para o Botafogo ou para o São Paulo (não, não é bullying, HC). Não faço aqui nenhum juízo de valor: apenas constato o quanto, dentro de toda sua complexidade, o ser humano nos surpreende, fugindo do usual. Aliás, caso faça um juízo de valor, será justamente para expressar minha satisfação, minha alegria, com todo esse pluralismo. É bom que haja masoquistas: é bom que haja pessoas que tirem prazer de onde outras não tirariam. Se todos gostassem de rúcula, que seria da alface?

Filmes de terror se inserem nesse contexto. Reparem: terror. Você vai ao cinema ou aluga o DVD (ou compra no pirata) para sentir...terror. Não é para suspirar apaixonadamente nem para gargalhar, muito menos para refletir sobre a vida; e sim para sentir medo.

Mas isso não é incrível?

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Animais urbanos


Tenho falado por aí -Twitter, Facebook etc.- sobre um livro que estou lendo, "Walden" de Henry David Thoreau. Como qualquer pessoa, sou assim: quando algo me agrada, quero partilhar com o mundo. É mesquinho guardar um tesouro só para si (isso mesmo, avareza é pecado capital, amigo). Thoreau não é novidade para mim: em 2006, dediquei uma das primeiras postagens do meu antigo blog a ele. Mas pegar "Walden" (um livrinho fácil, encontrado em qualquer banca de jornal, edição da L&PM) é uma alegria enorme.

Sinto inveja de Thoreau. Nem que seja na pura fantasia. Construir com as próprias mãos uma cabana às margens de um lago, no começo da primavera, quando o degelo ainda está no início...Isso tem um efeito inexplicável sobre um sujeito urbano como eu, morador de uma cidade quente e caótica. É um chamado à SIMPLICIDADE, em maiúsculas mesmo, uma vida simples e singela- e mais verdadeira.

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